Título: Cuba prepara governo pós-Fidel
Autor: Do enviado especial do GLOBO a cuba*
Fonte: O Globo, 10/08/2006, O Mundo, p. 38
HAVANA - Enquanto os cubanos permanecem sem informações sobre o estado de saúde do presidente Fidel Castro, fora do poder desde o dia 31 de julho, e seu irmão-substituto Raúl continua sem aparecer para a população, os elaboradores da propaganda oficial do governo cubano estão trabalhando dia e noite, segundo analistas. O objetivo é preparar terreno para um governo pós-Fidel.
A intenção dos integrantes do governo seria criar uma grande campanha interna com o tom de continuidade e soberania da ilha. Para isso, seriam usadas imagens e frases de Fidel, de Raúl, de heróis da Revolução cubana e também de grandes lideranças atuais. Raúl, segundo eles, está numa espécie de curso intensivo para melhorar seu desempenho diante das câmeras de televisão e em discursos.
¿ A essência do governo é a propaganda. Não tenham dúvidas de que Raúl, se realmente continuar na liderança do país, só aparecerá quando estiver preparado para demonstrar uma presença forte. Mas, independentemente disso, o governo já está com uma campanha de transição quase pronta para ir às ruas. Só depende do estado de Fidel nos próximos dias ou semanas ¿ disse um jornalista e professor de história, que pediu para não ser identificado.
Segundo outro jornalista, os rumores que espalharam por Havana de que Raúl não aparece porque estaria deprimido devido à grave doença de sua mulher, Vilma, não fazem sentido.
¿ É simples: se for um objetivo de Estado Raúl aparecer, ele aparece. Se estiver deprimido demais para cumprir um objetivo de Estado, então está deprimido demais para governar também. E todos aqui sabem que ele está trabalhando. Não sozinho, mas está ¿ disse, contando ainda que a campanha do governo incluiria milhares de outdoors e cartazes, já comuns em toda a ilha, propagandas na TV, no rádio e eventos populares de apoio ao governo, feitos nas principais cidades e com grande cobertura televisiva.
Em Havana, enquanto os mais jovens parecem indiferentes ao futuro do governo, muitos dos mais idosos lamentam a doença de Fidel.
¿ Estamos há muito tempo com ele e por isso estou sentindo muito. Os jovens não querem saber de nada. Só de tênis novo e de Estados Unidos. Rezo todos os dias para a melhora da saúde de Fidel, pois tenho medo de que este país seja entregue aos mais jovens ¿ disse uma moradora de Habana Vieja, de 67 anos.
Quase dois mil artistas e intelectuais assinam carta de apoio à soberania do país
Outra senhora, de 73 anos, que trabalhou para o Poder Executivo até se aposentar, diz que também lamenta muito o afastamento de Fidel, mas confia em Raúl e em outras pessoas que estão à frente do Gabinete.
¿ Tem muita gente boa por lá. Acredito que eles vão continuar o trabalho de Fidel e ainda melhorar, abrindo mais o país para o exterior, pois precisamos muito disso.
Na segunda-feira, cerca de 400 intelectuais de esquerda de cuba e de outros países lançaram um manifesto pedindo que o governo dos EUA respeite a soberania da ilha e seu direito de promover uma transição pacífica. Ontem, mais de 1.900 artistas e intelectuais já haviam se juntado à iniciativa, entre eles os escritores Noam Chomsky (EUA) e Eduardo Galeano (Uruguai); os atores Gérard Depardieu (França), Gael García Bernal (México) e Rodrigo de la Serna (Argentina) ¿ os dois últimos atuaram no filme ¿Diários de motocicleta¿, sobre Che Guevara ¿; e oito ganhadores de prêmios Nobel, entre eles José Saramago (Portugal), Desmond Tutu (África do Sul) e Dario Fo (Itália). Entre os brasileiros que já assinaram o documento estão o teólogo Leonardo Boff e o poeta Thiago de Mello.
*As identidades do repórter e de suas fontes estão sendo mantidas em sigilo por motivos de segurança