Título: Começo tímido em MT há oito anos
Autor: Evandro Éboli
Fonte: O Globo, 12/08/2006, O País, p. 8

BRASÍLIA. O relatório parcial da CPI dos Sanguessugas revela que o esquema nasceu timidamente em 1998, em pequenos municípios de Mato Grosso, onde fica a Planam, principal empresa da quadrilha. Nos primeiros golpes, a organização ainda não tinha a participação de parlamentares ¿ o acerto para o superfaturamento na venda de ambulâncias foi feito diretamente com prefeitos.

Na primeira negociata, os donos da Planam ¿ Darci Vedoin e Luiz Antônio Vedoin, pai e filho ¿ direcionaram as licitações para que a empresa fornecesse oito ambulâncias em 1998 e oito em 1999. As fraudes aconteceram, segundo relato deles, em Brasnorte, Ponte e Lacerda, Barra dos Bugres, Arenápolis e Vila Bela da Santíssima Trindade.

A partir de 1999 eles decidiram ¿potencializar os ganhos¿ e começaram a fazer em Cuiabá a conversão de veículos em ambulâncias, criando para isso as empresas Santa Maria, Klass e Enir Rodrigues de Jesus-EPP, abertas em nomes de parentes e laranjas.

Entra em cena o primeiro parlamentar: o deputado Lino Rossi (PP-MT). Ele faz, segundo Vedoin, um acordo que nos anos seguintes se repetiria com pelo menos 115 parlamentares e ex-parlamentares: os deputados apresentariam emendas ao Orçamento para a compra de ambulâncias em troca de 10% do efetivamente liberado pelo Ministério da Saúde.

Os Vedoin passaram a acompanhar o direcionamento de recursos desde a apresentação de emendas, para conseguir que a verba fosse destinada aos municípios onde a quadrilha possuía influência e montava uma licitação de cartas marcadas.

Vedoin contou que perto das eleições de 2002, a quadrilha passou a seduzir os deputados, que haviam assumido dívidas de campanha, com pagamentos adiantados. ¿Houve diversas negociações no `mercado futuro de emendas¿, basicamente ocorridas no período de campanha (...) quando os parlamentares aceitavam o `adiantamento¿ sob promessa de, uma vez eleitos, apresentarem emendas para a aquisição de unidades móveis de saúde¿, diz o relatório.