Título: ROMPIDO ELO ENTRE IRAQUE E GUERRA A TERROR
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Fonte: O Globo, 24/08/2006, O Mundo, p. 31
Para maioria dos americanos, dois assuntos não estão relacionados
A maioria dos americanos já não vê uma ligação entre o conflito no Iraque e a guerra ao terrorismo, revelou ontem uma pesquisa do jornal "The New York Times" e da CBS News, numa posição contrária à apresentada pelo presidente George W. Bush.
Cerca de 51% dos entrevistados acham que se trata de duas guerras separadas, enquanto 44% vêem alguma relação entre elas. Em junho, ambos os índices estavam em 41%. A pesquisa ouviu 1.206 pessoas, entre 17 e 21 de agosto, e mostra uma significativa mudança em relação a outras feitas em 2003, quando a maioria considerava que as duas questões estavam ligadas.
Para 53% dos entrevistados, ir à guerra foi um erro, um índice que estava em 48% em julho; 62% acham que os esforços para estabilizar o Iraque estão fracassando; e 65% disseram estar decepcionados com a maneira como Bush lida com o problema.
Quase a metade dos entrevistados, 46%, acusou Bush de se ocupar muito com o Iraque, e se descuidar de outras ameaças terroristas. Mas, para 42%, os esforços americanos eram equilibrados. Já a aprovação da gestão de Bush se manteve igual ao mês passado: 36%. E apenas 29% consideram que o país caminha na direção certa.
Na segunda-feira, Bush defendeu a campanha militar no Iraque para evitar ataques em solo americano. Mas a impopularidade da guerra está levando muitos republicanos a temerem o desempenho do partido nas eleições de novembro, nas quais os democratas tentarão retomar o controle na Câmara de Representantes e no Senado.
Julgamento de Saddam é adiado para 11 de setembro
Ontem, em Bagdá, o julgamento do ex-ditador Saddam Hussein entrava no terceiro dia. Vítimas da campanha de seu regime contra a população curda, no norte do Iraque, descreveram os ataques, entre eles os realizados com armas químicas. Mais tarde, o julgamento foi suspenso por três semanas.
- Eu perdi a visão. Meus filhos perderam a visão. Minha casa foi arrasada. Que Deus os cegue a todos - disse Adiba Owla Bayez, apontando para o ex-presidente e seus seis colaboradores.
Bayez descreveu como um avião lançou bombas perto de sua casa e ela notou que se tratava de um ataque diferente. O corpo da filha começou a arder e a pele, a se soltar.
- Tinha um cheiro peculiar. Como maçã podre. Minha filha Nargis disse que sentia dor no estômago e nos olhos. Todos os meus filhos vomitavam - contou Bayez sobre o ataque em 16 de abril de 1987, quase um ano antes de o governo iraquiano lançar formalmente a Operação Anfal (espólios de guerra) no Vale Balisan.
Outra testemunha, Badria Said Jadar, disse que peregrinou de povoado em povoado, fugindo dos bombardeios, enquanto ia perdendo a visão.
- Alguns bombardeios nos faziam vomitar e chorar. Outros debilitavam nossa visão.
A operação durou sete meses. No processo, Saddam é acusado de genocídio, assim como seu primo, Ali Hassan al-Majid, que ganhou o apelido de Ali Químico, pelo uso de gás venenoso. Os demais réus, que alegam que o ataque foi uma campanha legítima contra rebeldes que desafiavam o governo, são acusados de crime de guerra. Os sete podem ser condenados à pena de morte por enforcamento.
Moussa Abdullah Moussa, membro da guerrilha que lutava por um Estado curdo independente, estava em sua aldeia em 25 de agosto de 1988, quando ela foi atacada com gás.
- Encontrei meu irmão e seu filho. Estavam mortos e abraçados. Não posso descrever o que senti.
Pássaros sufocaram, o sangue pingando do bico. Pessoas mergulhavam o rosto no leite para aliviar a agonia causada pelos produtos químicos, lembrou Moussa.
A decisão de suspender o julgamento até 11 de setembro segue um padrão estabelecido durante o primeiro julgamento de Saddam - pela morte de 148 xiitas da cidade de Dujail - que teve algumas pausas.