Título: MORTALIDADE INFANTIL DIMINUI, MAS AINDA É ALTA
Autor: Selma Schmidt
Fonte: O Globo, 27/08/2006, Rio, p. 27

Novo anuário mostra que 15 municípios do Rio têm taxas acima das do Brasil; e 8, semelhantes às de estados do NE

Um ano depois da perda, a avó do pequeno Eric, Maria das Dores de Oliveira Ferreira, não encontra explicação para a morte do neto. Ele tinha dois meses e morava no Coimbra, bairro pobre e sem saneamento de Barra do Piraí, na região do Médio Paraíba. Maria das Dores arrumava o bebê para levá-lo para vacinar, quando percebeu que ele estava com dificuldade para respirar. Preferiu seguir para o Hospital Maria de Nazaré, onde a mãe de Eric fizera o pré-natal e o parto, e onde o bebê se tratava. No mesmo dia em que foi internado, ele morreu.

¿ Meu neto era uma criança esperta. Tinha nascido com 2,7 quilos e já estava com 4,5 quilos. Mamava no peito e não aparentava ter qualquer problema de saúde. O que os médicos disseram, na época, é que ele estava com um tipo de anemia que só dá em adultos. Mas não conseguimos entender direito o que aconteceu ¿ conta a avó.

Barra do Piraí é um dos 15 municípios fluminenses que têm taxas de mortalidade infantil (crianças nascidas vivas que morreram até 1 ano de idade, por mil habitantes) acima da brasileira (22,5/1000, em 2004), segundo o novo anuário da Fundação Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro (Cide), que será lançado em duas semanas. Apesar de a taxa ter diminuído no Estado do Rio (de 22, em 1994, para 17,1, em 2004), em oito municípios se mantém tão elevada quanto a de estados do Nordeste.

Barra do Piraí: gestantes e bebês só têm um hospital

Com população estimada de 94.160 habitantes e PIB per capita correspondente a 66,1% da média estadual, Barra do Piraí teve uma taxa de mortalidade infantil de 27,5/1000 em 2004. No mesmo ano, a taxa do Ceará foi um pouco maior: 29,4/1000.

¿ O ideal é que tivéssemos uma taxa de mortalidade infantil semelhante à do Chile (9/1000), que tem o PIB e a riqueza parecidos com o Estado do Rio ¿ diz o presidente da Cide, Ranulfo Vidigal.

Conforme o anuário da Cide, Rio das Flores (43,9/1000), Santa Maria Madalena (40) e Cardoso Moreira (36,8) foram os municípios fluminenses que tiveram as maiores taxas de mortalidade infantil em 2004, último ano com números sistematizados. Os três são municípios basicamente rurais, têm população pequena e PIB per capita baixo. Já no Nordeste as maiores taxas são de Alagoas (41,7) e Pernambuco e Paraíba (37,6). A menor é a do Ceará (29,4).

Com 8.339 habitantes, Rio das Flores conta com um hospital municipal ¿ sem UTI ¿ e três postos de saúde da família. A coordenadora de epidemiologia, Mirédina Hypolito, afirma que 2004 foi um ano atípico. Naquele ano, ocorreram cinco óbitos de menores de 1 ano causados, segundo ela, por má formação congênita ou doenças neonatais. Ela diz que, em 2005, as mortes de bebês caíram para duas e que este ano, até agora, nenhuma criança com menos de 1 ano morreu.

Em Barra do Piraí, apenas o Maria de Nazaré atende a gestantes e bebês. A unidade é filantrópica, de média complexidade e não tem UTI. Foi lá que, em maio, nasceu Ágata Ribeiro da Silva. Ela viveu apenas oito minutos. A família de Ágata, que mora no bairro Coimbra, está processando o hospital:

¿ Minha neta morreu porque deixaram o bebê passar da hora de nascer. Não quiseram fazer uma cesariana, quando minha filha esteve no hospital, dias antes, passando mal. Ela não tinha dinheiro para pagar ¿ conta a avó de Ágata, Maria das Graças Ribeiro da Silva.

Presidente do Maria de Nazaré, Emor Alves de Oliveira Filho afirma que 97% dos seus atendimentos são feitos pelo SUS. Garante que o hospital não cobra por cirurgias, mas afirma que há médicos que usam o centro cirúrgico da unidade para atender pacientes particulares. Ele reclama dos pequenos repasses feitos pela prefeitura (R$14 mil/mês) e da baixa cobertura do SUS (27% do custo das cesarianas). O diretor médico, Tufi Melhen Filho, cita também dificuldades para transferir um bebê, através da central estadual de regulação de vagas:

¿ A demora é tamanha, que alguns bebês que precisam de UTI acabam morrendo.

Coordenadora do Programa de Atendimento Integral à Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio, Eliana Calazans alerta para a importância de serem criados nos municípios novos comitês ¿ com representantes do setor público, de universidades e de entidades médicas ¿ para investigar os óbitos de bebês até 1 ano. As principais causas de mortes dessas crianças, diz ela, têm sido a diarréia e as infecções intestinais, embora a má formação congênita também esteja aparecendo bastante.

¿ A alta mortalidade infantil reflete a falta de uma política adequada de prevenção e tratamento precoce de doenças, como diarréia e infecções respiratórias, e de acesso à rede básica ¿ afirma Eliana.

Presidente da Associação Brasileira de Proteção à Infância e a Adolescência (Abrapia), Lauro Monteiro chama a atenção ainda para a necessidade de os municípios garantirem um pré-natal de qualidade:

¿ Todas as mulheres grávidas têm de fazer pelos menos seis consultas, exames de sangue e de urina, ter a pressão acompanhada e serem vacinadas contra o tétano.