Título: RÚSSIA DESTRONA ARÁBIA SAUDITA
Autor: Ramona Ordoñez
Fonte: O Globo, 26/08/2006, Economia, p. 37
Russos se tornam os maiores produtores mundiais de petróleo, mas sauditas vão reagir
No momento em que o consumo mundial de petróleo, de cerca de 84 milhões de barris diários (bpd), está muito próximo à sua oferta, de 85,2 milhões de bpd, e os preços do barril superam os US$70, a Rússia acaba de se tornar a maior produtora de petróleo, superando a até então imbatível Arábia Saudita, com uma produção de 9,236 milhões de barris diários, em junho, contra 9,190 milhões dos sauditas. Segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), citados esta semana pelo jornal britânico ¿Independent¿, a ex-república soviética ¿ que não pertence ao cartel ¿ já vinha apresentando, desde 2002, um ritmo de crescimento de sua produção superior ao do gigante árabe. Ainda de acordo com a Opep, a produção russa deve crescer para 9,9 milhões de barris diários este ano.
Especialistas em mercado internacional do petróleo, porém, destacam que apesar da virada russa, a Arábia Saudita vai reagir. Isto porque, as reservas de petróleo do país são imbatíveis se comparadas a de qualquer outro produtor, inclusive a Rússia. A Arábia tem reservas provadas de 264,3 bilhões de barris de petróleo, enquanto as da Rússia somam 74,8 bilhões de barris. No entanto, como membro do cartel da Opep, a produção saudita é limitada ao volume acordado com os demais países-membros.
¿ A Arábia Saudita continuará sendo o mais importante produtor de petróleo do mundo, mantendo sua hegemonia geopolítica, porque mais importante do que o volume em si é a sua sustentabilidade. E nesse caso as reservas árabes são bem maiores do que as russas ¿ disse um executivo da área internacional da Petrobras.
Petrobras aposta no mercado russo
Já o especialista Adriano Pires Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), acredita que o incremento da oferta mundial pelos dois países poderá permitir uma redução nos preços do petróleo. A produção petrolífera russa e a saudita têm crescido sensivelmente nos últimos anos.
Rodrigues destacou que a Arábia Saudita está desenvolvendo um agressivo programa para não só aumentar sua produção de petróleo, mas também vem investindo para se tornar produtora de outros insumos petrolíferos de maior valor agregado. O país está construindo, por exemplo, duas novas refinarias ¿ uma na China e outra na Índia. Além disso a estatal petrolífera Aranco está desenvolvendo projetos no setor petroquímico. Os sauditas estão também investindo em diversos projetos, para aumentar sua produção de petróleo para chegar aos 12 milhões de bpd até 2015.
A Rússia, que possui ainda grandes reservas de gás natural, também segue o mesmo caminho, não apenas por causa do lucro, mas igualmente pela posição estratégica que a condição de produtora lhe confere. Alguns setores, no entanto, temem que o país esteja deixando de lado investimentos em formas alternativas de combustíveis.
De olho nesse cenário, a Petrobras assinou recentemente um acordo de cooperação com a petrolífera estatal russa Gazpron, com o objetivo de desenvolver estudos de possíveis negócios em conjunto futuro.
A demanda por petróleo também está aquecida, puxada sobretudo por Estados Unidos e China. Só em julho, por exemplo, o consumo de petróleo chinês cresceu 12,2% em relação ao mesmo mês em 2005. Trata-se do quarto crescimento mensal seguido.
Com uma margem tão estreita entre demanda e oferta, os mercados ficam vulneráveis a movimentos especulativos diante de problemas geopolíticos ou intempéries climáticas. Ontem, por exemplo, a previsão de tempestade tropical no Golfo do México pressionou os preços do petróleo, que oscilaram com altas acima de um dólar, antes de fecharem num patamar mais modesto. Em Londres, o preço do barril do Brent subiu 0,03%, para US$72,70. Em Nova York, o barril do tipo leve subiu 0,21%, a US$72,51.
(*) Com agências internacionais