Título: CÚPULA DE JORNAIS DISCUTE DESAFIOS NA AL
Autor:
Fonte: O Globo, 29/08/2006, O País, p. 14
Dirigentes de empresas jornalísticas de 15 países da região e dos EUA debatem em São Paulo o futuro do veículo
SÃO PAULO. Os desafios das empresas jornalísticas latino-americanas diante dos avanços das novas tecnologias de difusão da informação, especialmente da internet, numa região em que quase um terço dos cidadãos que vive nas grandes cidades não sabe ler ou não tem capacidade de compreender aquilo que lê. Este é o tema central da I Cúpula Latino-Americana de Líderes de Jornais, promovida pela Associação Mundial de Jornais (WAN-World Association of Newspapers), que começou ontem e termina nesta terça-feira, em São Paulo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará no encerramento do evento.
¿ Este é um momento vibrante de mudanças no setor e o foco principal do encontro é formatar o futuro dos jornais ¿ disse o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Nelson Sirotsky, na abertura do encontro, que reúne dirigentes de jornais de 15 países da região e dos Estados Unidos.
No painel ¿Tendências globais dos jornais e suas implicações para a América Latina¿, o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, citou a utilização crescente da internet para a proliferação de boatos (os chamados hoax), que em boa parte são patrocinados por grupos econômicos com propósitos escusos.
¿ Não há como pensar em tendências no mercado de jornais sem analisar, em profundidade, o consumo de internet e o papel do jornal nesse novo ambiente ¿ disse João Roberto.
Diante dessa onipresença da internet na vida das pessoas, especialmente entre os jovens, o empresário defendeu que os jornais tenham uma cobertura mais ampla sobre esse espaço que, em sua opinião, vem sendo cada vez mais usado para a manipulação de informações:
¿ Nossos jornais devem, cada vez mais, cobrir a internet como um assunto relevante, ressaltando o que há de bom, e denunciando as manipulações.
A despeito dos novos meios de disseminação de informações, a circulação de jornais no mundo cresceu 0,56% em 2005 em relação ao anterior, e 6% nos cinco últimos anos, de acordo com dados divulgados pelo presidente da Associação Mundial de Jornais (WAN), Timothy Balding. Na América Latina, a circulação de jornais cresceu 3,7% no ano passado.
Em 2005, 439 milhões de pessoas compraram jornais diariamente, contra 414 milhões em 2001. Mercados de países asiáticos, como China e Índia, puxam a expansão. Dos cem jornais mais vendidos no mundo, 62 são editados nesses dois países. Na China, são vendidos 96,6 milhões de jornais por dia, contra 78,7 milhões na Índia, 69,7 milhões no Japão, e 53,3 milhões nos Estados Unidos.
Leitor mais cético e interativo
Flávio Ferrari, presidente do Ibope Media, apontou os baixos índices de escolaridade na América Latina como um problema a mais a ser enfrentado pelos jornais. Segundo ele, pode-se estimar que quase um terço dos moradores das grandes cidades latino-americanas não está apto à leitura de jornais. Por isso, sugeriu, investimentos maiores em educação poderiam ¿potencializar o setor de forma expressiva¿.
Baseando-se em pesquisas sobre o uso da internet ¿ que mostram ser crescente o número de pessoas que acessa a rede, assim como o tempo que essas pessoas ficam conectadas ¿ Ferrari observou que as possibilidades de acesso às informações mudam rapidamente.
¿ As pessoas têm uma abordagem diferente, são mais protagonistas, interativas e céticas ¿ afirmou, para concluir com uma provocação. ¿ Talvez não haja mais lugar para um editor de um veículo único. É necessário rever o atual modelo de negócio, que não me parece capaz de dar certo no atual cenário. As grandes corporações estão se tornando multimídia.