Título: FIM DA INDECISÃO MEXICANA
Autor:
Fonte: O Globo, 29/08/2006, O Mundo, p. 28
Corte decide que urnas anuladas por fraude não mudam resultado da eleição presidencial
CIDADE DO MÉXICO
Quase dois meses depois das eleições presidenciais mexicanas, a principal corte eleitoral do país disse ontem que o número de urnas que poderão ter o resultado cancelado ou modificado por fraudes não é suficiente para alterar o resultado do pleito. Na prática, a decisão do Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação concede a vitória ao candidato da situação, Felipe Calderón, acabando com as esperanças do oposicionista Andrés Manuel López Obrador.
O tribunal reviu ontem 240 pedidos de impugnação de urnas feitos pela esquerdista Coalizão Pelo Bem de Todos, liderada pelo Partido da Revolução Democrática (PRD), de Obrador, e 133 solicitações semelhantes do Partido da Ação Nacional (PAN), de Calderón e do presidente Vicente Fox. Apesar de ter considerado que houve problemas num número ainda não divulgado de urnas, a quantidade não seria suficiente para mudar o resultado preliminar da eleição de 2 de julho, que deu a Calderón 243.934 votos (ou 0,58 ponto percentual) a mais do que López Obrador. A decisão da corte eleitoral foi tomada de forma unânime pelos sete juízes e não há apelação possível.
¿ Com base nas anulações (de urnas) julgadas necessárias, todos os partidos perderam uma quantidade considerável de votos, mas isso não afetou os resultados ¿ disse o juiz José Luna.
De acordo com o presidente do tribunal, Leonel Castillo, as afirmações de López Obrador e seus partidários de que houve uma grande fraude nas eleições ¿provaram não ter qualquer fundamento.¿
A corte, no entanto, não divulgou o resultado oficial da eleição nem anunciou a vitória de Calderón. Por lei, ela tem até o dia 6 de setembro para isso.
López Obrador declarou à noite que rejeita a decisão do tribunal que, segundo ele, ¿abre caminho para um usurpador¿. Segundo assessores, ele pretende manter a idéia de criar um governo paralelo.
¿Rejeito a decisão e não reconheço Felipe Calderón como presidente. Trata-se de um usurpador, que pretende tomar o poder mediante um golpe de Estado. Não merece o crédito dos mexicanos¿, disse ele em um discurso para milhares de pessoas na principal praça da Cidade do México.
Segundo a corte, a candidatura de López Obrador não conseguiu provar que houve fraude em muitas urnas apresentadas como suspeitas. Além disso, o PRD sequer teria conseguido comprovar ter sido mais atingido por erros de contagem e de procedimento do que seu principal adversário.
Desde que os resultados preliminares foram divulgados, no dia 6 de julho, López Obrador conclamou a população a sair às ruas e não permitir que os resultados fossem oficializados. Segundo ele, houve uma fraude de grandes proporções em todo o país, apesar de monitores internacionais terem afirmado que não houve nada que ameaçasse o resultado da apuração. Segundo observadores da União Européia, não foram registradas irregularidades suficientes para que a transparência da eleição fosse posta em dúvida.
Manifestações e desobediência civil
Apesar disso, López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México, iniciou uma série de protestos logo depois do anúncio dos resultados preliminares. Foram realizadas centenas de manifestações e passeatas, a maior delas no dia 30 de julho na capital mexicana, com centenas de milhares de participantes.
Integrantes do PRD e simpatizantes de López Obrador também começaram a realizar ações de desobediência civil, como o bloqueio de estradas e invasão de prédios governamentais e bancos privados. Nas últimas duas semanas, no entanto, os protestos vêm diminuindo.