Título: 'Sou ternura e fúria'
Autor:
Fonte: O Globo, 30/08/2006, O País, p. 11

Heloísa Helena se diz 'fofinha', mas reconhece que de vez em quando se torna 'braba demais'

A alagoana Heloísa Helena, que não economiza ataques verbais aos adversários e reza na cartilha socialista, também fala no diminutivo, segue a Bíblia e é capaz - agora - de brincar com as perguntas sobre seu guarda-roupa sempre igual. Como ela mesmo define, transita entre sentimentos antagônicos. O que a tira do sério, relata, são os mensaleiros, "ladrões de ambulância" e mentirosos. Com a família, os amigos e os eleitores, a candidata do PSOL se diz "super-boazinha". Confrontada com essa aparente incoerência, em pergunta do colunista Jorge Bastos Moreno durante a sabatina no GLOBO, Heloísa Helena resumiu:

- Sou como a maioria das mulheres são: ternura e fúria. Mas é difícil ter paciência. Eu não acho que exista esse abismo. Sou a mesma pessoa.

"Discordo só na rua. Em casa é paz e amor"

O jornalista chegou a ser vaiado por militantes do PSOL ao fazer referência ao uso, pela senadora, tanto do discurso raivoso como da simpatia, definida por ele como "essa coisa de mulher". Foi acolhido com bom humor pela candidata.

Até para revelar o nome do time preferido, a candidata mantém a diplomacia. Diz que torce para os times dos filhos.

- Discordo só na rua. Em casa é paz e amor.

Num dos momentos em que assumiu o lado "boazinha", ela respondeu com bom humor à pergunta do colunista Joaquim Ferreira dos Santos sobre a escolha do jeans e da camiseta branca como uniforme de campanha. Heloísa se disse "fofinha, cheirosinha e limpinha". O argumento: roupa branca tem sempre que estar limpa, porque a sujeira aparece logo. Disse que o guarda-roupa se deve a "pura mania mesmo". A mãe de um amigo, conta, já chegou a lhe mandar diversas blusas brancas depois de acreditar numa brincadeira feita pelo filho: o de que o vestuário se devia a uma promessa.

- Espoleta do jeito que eu sou... Só na rua, viu? Porque de perto sou normal e boazinha... Imagina se eu andasse com roupa vermelha? - brincou, num tom bem mais ameno do que adotou em entrevista ao "Jornal Nacional", quando reagiu com irritação a uma pergunta semelhante feita pela jornalista Fátima Bernardes.

Na entrevista ao "JN", ela disse que a pergunta era desnecessária. Mas já adotou, ali, um comportamento mais afável do que o usual na campanha. Chegou a receber elogios de um conselheiro não-autorizado, o prefeito do Rio, Cesar Maia, do PFL, que recomendara em seu ex-blog: "Dirija-se ao eleitor com autoridade serena como se estivesse na casa dele". Ela afirma que jamais leu os e-mails de Cesar e que os conselhos do prefeito não são bem-vindos:

- Como podem achar que eu preciso da orientação de um homem para me comportar?

Candidata se diz "chatinha eintolerante" com adversários

Para o calor da campanha, Heloísa Helena reserva o outro lado. "Chatinha e intolerante", como define. Ela usa adjetivos como safados, bandidos e moleques para atacar adversários.

- Prefiro o inimigo que me enfrenta de frente, aquele que eu sei que vai me arrebentar, àquele mel na boca e bílis no coração, beijinho na frente e facadinha nas costas. É por isso que eu sou às vezes braba demais, intolerante. Mas não é brincadeira. Você está convivendo com o cara roubando ambulância, mensaleiro, outras coisas mais, e vai ficar calma? Não dá. No dia em que eu tiver tolerância com meu filho agredido, passo a ter tolerância com os filhos da pobreza agredidos também - afirma.

A senadora se define como uma mulher comum, de uma família humilde. Diz ter aprendido os primeiros conceitos de socialismo ao ler a Bíblia:

- Eu sou uma mulher como a grande maioria das mulheres brasileiras. Tive o orgulho de nascer em uma família simples, no interior das Alagoas. O mais importante para mim é que, mesmo tendo nascido em uma família humilde, toquei nos tapetes considerados sagrados da estrutura do poder, nos tapetes azuis do Senado. E não vendi, não traí a minha classe de origem, não me acovardei perante quem ousa pensar que é dono dos destinos.

Foi nos sermões de padre Antônio Vieira - "que li em português arcaico" - que ela diz ter aprendido que todas as crianças têm que ter acesso à cultura e à educação.

- Por que outra criança não pode ter essa experiência de acesso à cultura? - pergunta.

www.oglobo.com.br/pais/eleicoes2006

Darly de Souza Ribeiro

INTERNAUTA

Se a senhora for eleita presidente, vai tentar aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo?

Matrimônio tem toda uma vinculação religiosa e ideológica. Então, não vou tratar disso. Agora, se a pergunta é sobre duas pessoas do mesmo sexo que vivem juntas, não quero saber o que elas estão fazendo na intimidade. Não tenho nem tempo para pensar na minha. Nós somos filhos e filhas do mesmo Deus. Me interessa o que é justo. Se o projeto estabelece que essas duas pessoas, que constróem um patrimônio juntas, se uma delas morre, a outra tem o direito de ficar com o patrimônio construído, sou a favor. Sou cristã.

Fausi Sarraf

INTERNAUTA

Erico Verissimo, em "O tempo e o vento", escreveu: "Política e decência nunca andam de mãos juntas. São inimigas mortais". A senhora concorda?

Não. Discordo completamente. Não aceito. Claro que nós, parlamentares, nos vemos num estado ad nauseam eternum diante de determinadas coisas. Mas esse tipo de argumento não aceito. Quando alguém diz que tem que meter as mãos nas fezes, eu não aceito. Não meti a mão. E não ensino meus filhos a roubar. Que conversa fiada é essa? Na minha vivência do Parlamento, eu conheço pessoas que não se venderam. Eu não me dobro. Eu tenho tantos defeitos que você nem imagina. Mas essa safadeza da corrupção não entra lá em casa.

João Manuel Anderson

INTERNAUTA

Se a senhora for eleita, onde vai buscar tanta gente honesta para dirigir tantos cargos no Brasil? No exterior?

É para se lascar um negócio desse. Ô, homem de pouca fé na pátria. Eu identifico uma minoria desonesta. O que eu conheço de mães e pais de família pobres que fazem um esforço danado para criar seus filhos com dignidade... O atributo da honestidade é obrigação. O atual governo devolveu aos cargos públicos delinqüentes que deveriam devolver o que roubaram nos governos anteriores. Quando falo de honestos, falo de técnicos, de muita gente competente, que está no setor público, no setor privado, nas ONGs.

Suzete Watt

PROFESSORA UNIVERSITÁRIA

Heloísa, você, presidente, o que fará para facilitar a vida da mulher trabalhadora nas questões da saúde e no cuidado com a família?

A área da Saúde não pode esperar. Se o seu filho está ardendo em febre em casa e não vê um médico, ele tem uma convulsão, faz uma lesão cerebral e pode morrer. Temos que garantir a saúde preventiva, inclusive com infra-estrutura, saneamento, aumento do salário mínimo. Hoje temos que tratar da questão do lixo, dos esgotos, além de outros mecanismos de vigilância epidemiológica para combater as doenças vinculadas ao desenvolvimento e, ao mesmo tempo, ter a tecnologia. É importante que o Brasil possa promover os procedimentos.

Maurício Fernandes Junior

ATOR

Em um projeto de aprofundamento de projetos de educação, a senhora incorporaria a cultura e as artes?

Completamente. Acho que só isso salva o mundo. Eu não tive a oportunidade de vivenciar determinadas experiências na minha história de vida. Nem nos esportes nem no mundo das artes. Mas fui salva por um pouquinho, pelo qual eu pude me dedicar, graças aos meus irmãos. O mais velho morreu assassinado. Tudo o que possibilita fazer florescer a sensibilidade humana é muito importante. A sociedade embrutece. Ela massacra todos os dias o coração e a mente das pessoas. Acho que isso pode ser feito através da escola integral.