Título: CORTES E BRAÇOS CRUZADOS NA VOLKS
Autor: Ronaldo D'Ercole
Fonte: O Globo, 30/08/2006, Economia, p. 27
Por carta, empresa comunica 1.800 demissões no ABC paulista e empregados fazem greve
Irredutível em levar adiante seu plano de reestruturar as operações no Brasil, a Volkswagen comunicou ontem, por carta, a demissão de 1.800 empregados de sua fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. A resposta dos funcionários foi imediata: em assembléia convocada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, filiado à CUT, à tarde, os trabalhadores da montadora decidiram entrar em greve por tempo indeterminado. A produção foi paralisada, com os trabalhadores permanecendo dentro da unidade. A montadora informou que não se pronunciaria sobre os acontecimentos.
- Não podemos aceitar, em hipótese alguma, o comportamento que a fábrica está tendo conosco - disse o presidente do sindicato do ABC, José Lopez Feijóo, na assembléia, referindo-se à intransigência da montadora quanto às demissões.
Volks e sindicalistas negociaram desde a quarta-feira da semana passada, durante cinco dias, um acordo sobre o plano de demissões naquela fábrica, que devem atingir 3,6 mil dos 12 mil empregados. Ao todo, foram 33 horas de reuniões sem sucesso.
- Nós falamos sobre todos os pontos, mas não chegamos a acordo sobre nenhum deles - disse Feijóo. - Estávamos dispostos a negociar, mas a fábrica manteve-se inflexível. Como é que se caminha assim?
Pouco antes da assembléia, marcada para a hora da troca de turnos, muitos trabalhadores chegavam ao pátio brandindo as cartas que haviam acabado de receber. "Comunicamos a VSa. que, após o prazo de estabilidade que se encerra em 21 de novembro próximo, esta empresa o estará demitindo com o pagamento das verbas rescisórias e indenizando o aviso prévio", dizia o texto da carta entregue pelo Departamento de Recursos Humanos aos empregados.
Dispensa a dois anos da aposentadoria
Dos 1,8 mil que receberam a carta ontem, 500 já estavam afastados em licença remunerada desde 2003. Naquele ano, a empresa iniciou seu plano de reestruturação. Mas como foi firmado com o sindicato, em 2001, acordo de cinco anos de estabilidade, os trabalhadores do ABC não foram cortados. Abriu-se, então, um plano de demissões voluntárias (PDV), ao qual aderiram 3 mil empregados.
Givaldo Luiz dos Santos, de 48 anos, que trabalha como ponteador na linha de montagem do Fox, foi um dos que chegaram à assembléia ontem com a carta nas mãos. Ele e mais seis colegas foram chamados antes à sala de pessoal para receber a carta. Casado, pai de dois filhos, ele trabalha há 13 anos na fábrica da Volks.
- Isso é uma crueldade. Todos que trabalham aqui são pessoas que dão a vida por isso aqui - disse, ainda atônito com o comunicado.
Com 16 anos na empresa, Reginaldo Silva, de 50 anos, tem estabilidade no emprego garantida por lei, porque em 1994 sofreu um acidente que lhe tirou parte dos movimentos de uma das mãos. Ele também recebeu a carta de demissão, e disse que se aposentaria daqui a dois anos e meio:
- Agora vou conversar com meu advogado para ver minha situação.
A estratégia "de luta" do sindicato é fazer os trabalhadores comparecerem ao trabalho e, a cada dia, orientá-los sobre o que fazer durante cada turno.
- A greve é por tempo indeterminado, só que a gente muda todo dia. O formato da greve a companheirada vai ficar sabendo aqui no pátio - explicou o coordenador da comissão da fábrica da Volks, Wagner Santana.
Por causa do impasse no ABC, anteontem o governo tinha condicionado liberar um novo empréstimo de R$479 milhões do BNDES, pedido pela Volks, à conclusão das negociações com os trabalhadores. O banco aguardaria que um acordo entre a empresa e os sindicatos sobre a reestruturação da fábrica no ABC chegasse ao fim. Sem entendimento, a negociação para liberação dos recursos está suspensa. Desde 2000, o BNDES já emprestou à montadora alemã cerca de R$2,5 bilhões para investimentos nas linhas de caminhão, ônibus e automóveis.
O ministro do trabalho, Luiz Marinho, que na segunda-feira havia se reunido com representantes da Volks para discutir o impasse no ABC, não quis comentar as demissões nem a deflagração da greve:
- Hoje não vou falar sobre isso. Desconheço esse assunto.
Enxugamento no exterior
Ford e GM amargam queda nas vendas
"Enxugar custos" se tornou o lema das montadoras em todo o mundo. Em janeiro, a Ford anunciou a demissão de 30 mil trabalhadores na América do Norte este ano, com o fechamento de 14 fábricas, e a DaimlerChrysler disse que mandaria seis mil embora. Em outubro do ano passado, a General Motors (GM) havia anunciado também um corte de 30 mil, nos Estados Unidos e Canadá, encerrando as suas atividades em 12 unidades.
Nos EUA, as americanas Ford, GM e Chrysler vêm perdendo espaço para as japonesas Toyota, Nissan e Honda. Mês passado, a Toyota passou a Ford em vendas pela primeira vez nos EUA. Posto que ela já ocupava globalmente: em 2005, a Toyota vendeu 7,65 milhões de veículos, segundo a revista "Bloomberg Markets", contra 6,80 milhões da Ford. A líder ainda é a GM, que vendeu 9,17 milhões de veículos ano passado, mas muitos analistas já vêem esse reinado ameaçado pela Toyota. Afinal, as vendas americanas da GM - que tenta costurar uma joint-venture com a Nissan - caíram 22,5% em julho, e a previsão para este mês é recuar 5%.
A queda nas vendas de Ford e GM deve-se, em parte, à alta nos preços dos combustíveis. As montadoras americanas sempre apostaram nos utilitários esportivos, grandes bebedores de gasolina, que não cabem mais no orçamento da classe média. Já as japonesas preferiram investir na eficiência do motor, reduzindo o consumo, e em modelos híbridos.
COLABOROU Henrique Gomes Batista