Título: Fogo no palheiro
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 31/08/2006, O GLOBO, p. 2

Os dias que nos separam da eleição ganham a partir de hoje uma clara mudança no tom da campanha, indicando a possibilidade de movimentos bruscos, de resultados imprevisíveis. O risco de perdas para o candidato favorito, em tais situações, costuma ser maior que as possibilidades de ganho para os adversários.

Em sua apresentação de ontem na sabatina do GLOBO, o candidato tucano Geraldo Alckmin mostrou o quanto se esforça para exercitar a agressividade que se cobra dele contra o candidato-presidente. Falou em ¿descalabro ético¿, comparou o governo a uma ¿lista telefônica da corrupção¿ e por aí afora. Na avaliação de seus estrategistas, ele agora já adquiriu conhecimento e credibilidade para passar a bater fortemente em Lula. Ele fez críticas contundentes sobre a qualidade do governo ¿ ¿que não funciona, faz o país andar de lado¿ ¿ e investiu vigorosamente contra o flanco moral. Mas algo em sua personalidade, em sua representação, faz com que as palavras percam a força, pareçam ensaiadas. O sinal de ataque foi a recomendação do ex-presidente Fernando Henrique, para que se ponha ¿fogo no palheiro¿. Ainda que o candidato não consiga, outros poderão riscar o fósforo.

Assim como o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, da FGV, muitos observadores creditam a novo tom da oposição ao desespero. Mas é no desespero que a ousadia cresce. Por isso, é estranho que Lula e sua turma estejam ajudando a incendiar a campanha. O tucano só tem a ganhar com isso. Lula só tem a perder. Depois de puxar a corrupção para o centro do debate, com as acusações ao governo passado na introdução do programa de governo, Lula voltou a atacar FH ontem, exumando o apagão energético de 2001. Quer trazê-lo para o arena, certo de que isso ajuda a debilitar Alckmin. Lula não está precisando disso. O ministro Tarso Genro foi ontem ao Congresso buscar interlocutores para sua proposta de entendimento em torno de uma agenda de prioridades. Já esclareceu que não está tentando aliciar nem desidratar a oposição. Cada um no seu papel. A agenda é mesmo importante, e algum acordo será necessário, ganhe quem ganhar. Mesmo renovado, o Congresso ainda estará na UTI moral. Mas fazer isso agora é passar a idéia de que a eleição está ganha. Assim entendendo, ou querendo entender, a oposição rugiu forte. São arriscados os movimentos de Lula, para quem desfruta de seus índices nas pesquisas.

Será ruim para a vida política nacional o incêndio que se ensaia. Aliás, a expressão usada por FH é infeliz. No palheiro, todos são palha. Fibra fraca, seca, comburente. Podem arder todos eles juntos.