Título: ARTISTAS QUE APÓIAM ALCKMIN CRITICAM COLEGAS
Autor: Adriana Vasconcelos e Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 31/08/2006, O País, p. 15

Em reunião com tucano, atores e músicos defendem que campanha fale mais na questão ética

SÃO PAULO. Artistas reunidos num encontro de adesão à campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência repudiaram as manifestações de colegas que, num jantar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, semana passada no Rio de Janeiro, minimizaram a corrupção é a falta de ética no governo federal. O ator Juca de Oliveira foi duro ao rebater declarações feitas pelo ator Paulo Betti ¿ de que é impossível fazer política sem sujar as mãos ¿ e do cantor Wagner Tiso ¿ de que a questão da ética é secundária ¿ na reunião na casa do ministro da Cultura, Gilberto Gil.

¿ Quando, em função de um grupo, você abdica de princípios éticos e morais, a coisa fica complicada e libera você para muita coisa. Daqui a pouco vão dizer que, assim como roubar, matar e estuprar também são coisas permissíveis ¿ disse Juca, no encontro realizado com Alckmin num hotel de luxo de São Paulo.

Contrariado com a conduta dos colegas, embora tenha feito questão de dizer que as opiniões devem ser respeitadas, Juca disse que, ao fazer tais declarações, simpatizantes do PT e do presidente Lula mostram o que pensavam:

¿ Essas declarações mostram que houve uma confissão de que a ética não é mais importante.

Ainda que tenha evitado polemizar, a atriz Irene Ravache não escondeu a indignação:

¿ Cada um fala o que quiser. Eu não quero falar nada, tenho vergonha na cara ¿ disse ela.

Também incomodado com as declarações de Betti e Tiso, o ator Fúlvio Stefanini disse que preferia acreditar na ingenuidade dos colegas.

¿ Eu só posso acreditar que eles são ingênuos ¿ disse o ator, que apóia Alckmin.

¿ A história do país mostra que sempre se fez política com as mãos sujas. Mas quando aparece alguém eticamente correto, acaba sendo abatido pela maioria ¿ disse ele.

Nessa mesma linha, o regente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), o maestro John Neschling, classificou de ridículas as declarações dadas no Rio, no encontro com Lula.

¿ Eu preferia nem falar sobre essas declarações ridículas porque elas só envergonham a classe artística.

Alguns artistas defenderam que Alckmin adote um tom mais duro na campanha, trazendo à tona o tema da corrupção. Neschling foi um deles.

¿ Não falar na corrupção e na decadência da ética no PT é deixar de fora algo importante (...). Fica mais difícil virar o jogo (nas pesquisas) se não falar da diferença brutal do ponto de vista ética entre o PT e o PSDB ¿ disse Neschling.

Fulvio Stefannini concorda:

¿ Infelizmente, o jogo é esse. Não deveria ser, mas se você não bate, acaba apanhando.