Título: DAMATTA: JORNAL DEVE EXERCER O ESTRANHAMENTO
Autor: Adauri Antunes Barbosa
Fonte: O Globo, 01/09/2006, O País, p. 14

Congresso da ANJ é encerrado com debates sobre o papel da imprensa na trajetória brasileira e o novo jornalismo

SÃO PAULO. O antropólogo Roberto DaMatta disse ontem, no encerramento do 6º Congresso Brasileiro de Jornais, promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), que um dos objetivos dos jornalistas brasileiros deve ser o de ¿exercer o estranhamento e a curiosidade, acima dos tabus da rotina e do bom-senso¿, de forma que seja questionado o que todo mundo acha que é normal. DaMatta foi o provocador do debate ¿Para onde vai o Brasil? Qual é o papel dos jornais nessa trajetória?¿.

¿ Nós, os jornais e a sociedade temos que discutir se vamos manter os privilégios que a sociedade defende, que são representados pelo famoso ¿Sabe com quem está falando?¿, ou se vamos optar por uma sociedade mais igualitária. O grande desafio hoje dos jornais, e também da sociedade, é apontar as formas como ela própria, a sociedade, vai transitar até a solução do viés aristocrático em que vive para a sociedade igualitária ¿ disse DaMatta.

No mesmo debate, o diretor de Redação da ¿Folha de S.Paulo¿, Otavio Frias Filho, disse que o jornal seria o meio mais apropriado da mídia tradicional para assumir o papel proposto por DaMatta. Para assumir essa tarefa, segundo ele, deve-se praticar um jornalismo qualificado, orientado e preocupado com a dimensão pública, dando espaço para a divergência de opiniões.

¿ O jornal tem de se abrir para o público entender o que quer dizer, sem perder qualidade. Em comparação com a mídia tradicional, o jornal tem credibilidade e capacidade de investigação que nenhum outro meio tem ¿ disse ele, em debate com a participação do diretor de Redação de ¿O Estado de S.Paulo¿, Sandro Vaia; do diretor de Redação de ¿Zero Hora¿, Marcelo Rech, e do diretor de Redação do ¿Correio Braziliense¿ e de ¿O Estado de Minas¿, Josemar Gimenez.

Consultor pede mudanças no conteúdo dos jornais

No debate, ¿Os leitores e a interação com os jornais: está surgindo um novo jornalismo?¿, o consultor Carlos Alberto di Franco defendeu mudanças no conteúdo dos jornais.

¿ Para se chegar ao leitor não há saída para a mídia impressa a não ser produzir matérias profundas, analíticas. O redesenho é só a moldura, não a alma do quadro ¿ disse.

Comprovando o otimismo que dominou o congresso em relação ao desempenho do meio como veículo publicitário, foi apresentada a pesquisa ¿Quero comprar II¿, do Instituto Ipsos-Marplan, com 1.760 entrevistas em 12 cidades, entre maio e julho de 2006, mostrando o poder que o meio tem de influenciar os consumidores em suas decisões sobre as compras. A pesquisa mostra que o jornal é a mídia mais consultada para uma decisão de compra, com 61%.

Segundo o presidente da Associação Nacional de Jornais, Nelson Sirotsky, ficou comprovado que o jornal, entre todos os meios de informação, é o mais usado pelo brasileiro na decisão de compra.

¿ O jornal é o grande veículo deste nosso século 21, o que se deve fundamentalmente pela complementaridade que temos disponível e podemos fazer unindo o papel com o meio eletrônico ¿ disse Sirotsky, reeleito presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ).