Título: JANDIRA BENEFICIOU SINDICATO QUE MARIDO PRESIDE
Autor: Alan Gripp
Fonte: O Globo, 02/09/2006, O País, p. 20

Deputada, candidata ao Senado, apresentou emenda de R$2,5 milhões para UFRJ construir simulador para Sindmar

BRASÍLIA. Uma emenda de R$2,5 milhões apresentada no ano passado pela deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), candidata ao Senado, beneficiou diretamente o Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante (Sindmar), presidido por seu marido, Severino Almeida Filho. Os recursos foram liberados este ano para a UFRJ, que, em parceria com o Sindmar, construiu um simulador de navegação de última geração que será inaugurado em setembro no sindicato.

Jandira, que lidera as pesquisas, atribuiu a denúncia ao ¿jogo sujo¿ da campanha eleitoral e disse que apresentou a emenda não para beneficiar o marido, mas sim por representar o setor há duas décadas.

Revista do sindicato destaca participação de Jandira

A construção do simulador foi sugerida pelo sindicato ao reitor da universidade, Aloísio Teixeira, numa reunião em 2004. A deputada apresentou uma emenda ao Ministério da Ciência e Tecnologia, no Orçamento do ano seguinte. A partir daí, Severino participou diretamente da escolha da empresa que fez a obra, a americana Transas Marine USA. O dinheiro foi liberado no fim de 2005 em duas parcelas, a primeira de R$250 mil e a segunda de R$2,250 milhões.

A construção do Centro de Simulação Aquaviária (CSA), que irá qualificar trabalhadores do transporte marítimo, foi divulgada com pompa pelo sindicado em sua revista, a ¿Unificar¿. Em reportagem de cinco páginas na edição de abril deste ano (número 23), a entidade trata o projeto como seu.

Na reportagem, há uma foto de Jandira visitando as obras. A deputada também recebe elogios da revista: ¿Grande parcela desta conquista deve-se à ação política da deputada federal Jandira Feghali, que há mais de 15 anos vem trabalhando em prol dos marítimos no país¿, afirma um trecho da reportagem. Não é a primeira vez que Jandira aparece na ¿Unificar¿: nas últimas três edições, há sete fotos dela.

Na mesma edição, coincidentemente, há um anúncio de página inteira da Transas Marine. A empresa foi contratada sem licitação com o argumento de que não há no Brasil empresas capazes de construir um simulador com as especificações desejadas. A escolha da Transas, porém, esconde outra coincidência: a empresa é representada no Brasil pela Navsoft Consultoria e Serviços Ltda, que tem entre os sócios Marcos Silveira, amigo de Severino e articulista da revista ¿Unificar¿.

Procurada pelo GLOBO, Jandira disse que o dinheiro de sua emenda foi repassado para a universidade, e que o sindicato não recebeu nenhum centavo.

¿ Pelo contrário, o sindicato botou R$800 mil para bancar a estrutura necessária para receber o simulador. Não tem nada de antiético, estou disposta a participar de um debate público sobre o assunto. O sindicato existe há mais de dez anos. Ele (Severino) era presidente antes de ser meu marido.

A deputada afirmou que a visibilidade que teve na revista não se relaciona ao projeto:

¿ Eu apareço na revista há 15 anos porque sou uma líder nessa área há muito tempo.

Reitor diz que UFRJ pediu emenda à deputada

O reitor da UFRJ disse que o projeto foi sugerido pelo sindicato, mas depois que a universidade procurou a entidade para desenvolver projetos de extensão. Segundo Aloísio Teixeira, como não tinha recursos próprios para tocar a obra, a UFRJ pediu a Jandira que apresentasse a emenda e que a contratação da Transas aconteceu dentro dos padrões legais:

¿ Como o equipamento não é fabricado no Brasil, fizemos uma cotação no mercado internacional e escolhemos a empresa (Transas) que ofereceu menor preço, menor prazo (de entrega) e melhor adequação às especificações técnicas.

Teixeira não quis comentar os possíveis benefícios pessoais de Jandira e Severino com o projeto. Disse apenas que o simulador é muito importante para a universidade e que ele foi construído na sede do sindicato porque poderia ser melhor aproveitado pelo seu público alvo: os marítimos.

¿ Não estou preocupado com isso, nunca estive. Só posso falar com segurança sobre a participação da universidade nisso.