Título: O presidente age como se ainda fosse oposição¿
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 05/09/2006, O Mundo, p. 28

BUENOS AIRES. Mais uma vez, a Bolívia é cenário de uma delicada queda-de-braço entre setores que defendem dois modelos completamente diferentes de país. Assim explicou ao GLOBO o analista boliviano Roger Tuero, da Escola de Ciência Política da Universidade Estatal Gabriel René Moreno, a nova crise em que está mergulhado o país.

O governo enfrenta uma forte oposição no Congresso e na Assembléia Constituinte e, paralelamente, o aprofundamento do conflito com os departamentos (estados) que exigem autonomia¿

ROGER TUERO: Sim, estamos diante de um cenário muito delicado. A união de partidos políticos opositores e movimentos regionais é perigosa, poderia provocar choques violentos e aprofundar o clima de ruptura. O problema que vemos, do lado do governo, é que o Movimento ao Socialismo (MAS) está tentando impor uma visão de país tanto no Congresso como na Assembléia Constituinte, usando a pressão dos movimentos sociais. O presidente Evo Morales continua aplicando a mesma metodologia que usava quando era oposição.

O país está à beira de uma nova crise institucional?

TUERO: O problema que temos hoje na Bolívia é o seguinte: temos um governo que quer mudanças radicais e uma oposição que quer restaurar as condições que existiam antes do governo de Evo Morales. Mas essa oposição não apresenta propostas: para ela a questão da inclusão social, por exemplo, não é um problema. Temos um governo radicalizado e uma oposição que tenta resistir, mas sem propostas.

Morales poderia endurecer mais sua posição?

TUERO: Acredito que tanto o governo como a oposição tentarão chegar a um entendimento. O governo não pode sacrificar a assembléia porque ela representa o projeto mais importante de Evo Morales. Ter uma constituição sem a participação da oposição não seria legítimo. (J.F.)