Título: Índia: inclusão com responsabilidade fiscal
Autor: Sonia Soares
Fonte: O Globo, 06/09/2006, Economia, p. 33

Primeiro-ministro indiano defende controle da inflação e reforma tributária para atender às camadas mais pobres

NOVA DÉLHI. Na primeira visita de um primeiro-ministro indiano ao Brasil desde que Indira Gandhi esteve no país em 1968, o premiê, Manmohan Singh, desembarca na próxima semana com uma comitiva com representantes do governo e cerca de 50 empresários indianos, para a primeira Cúpula Índia, Brasil e África do Sul (Ibas). O objetivo é dar continuidade às conversas iniciadas em 2003 e aproximar mais os três países. Integrante da comitiva, o ministro de Relações Exteriores da Índia, R. Viswanathan, não espera fechar, durante a cúpula, um acordo entre seu país e o Mercosul. Mas acredita que chegou o momento de Brasil e Índia avançarem nas negociações, sobretudo em tecnologia da informação e energia. E prevê que, em três anos, as trocas entre os dois países cheguem a US$5 bilhões.

No início dos anos 90, Singh, então ministro da Fazenda, conduziu as reformas econômicas que ajudaram a Índia a se tornar uma potência emergente, com crescimento médio de 8% nos últimos dois anos, apesar de ainda sofrer com grandes déficits e muita pobreza. Singh defende a responsabilidade fiscal para manter o crescimento e acredita que o controle da inflação - hoje em torno de 4% - é a melhor forma de proteger os mais pobres, um discurso muito semelhante ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Admirador de Celso Furtado, Singh não poupa elogios a Lula: "Sob a Presidência de Lula, acredito que o Brasil vai realizar todo o seu potencial de desenvolvimento", afirmou ele ontem a um grupo de jornalistas brasileiros. A seguir, os principais trechos da entrevista.

DÉFICIT E POBREZA: "Nenhum país pode tornar-se rico imprimindo dinheiro ou tomando empréstimos infinitamente. Por isso, acredito que políticas monetárias e fiscais são tão ou mais importantes na busca de uma sociedade inclusiva. Mas isso não significa que não haja espaço para reorientar nosso sistema tributário, dando prioridade às classes mais desfavorecidas. A arrecadação no nosso país tem crescido a uma taxa de 20% ao ano. Se a economia continuar a crescer de 8% a 9%, sem sacrificar a responsabilidade fiscal vamos gerar mais recursos para programas de educação, saúde e desenvolvimento rural. Não creio que haja contradições entre manter a responsabilidade fiscal e ter compromisso com a construção de uma sociedade inclusiva".

PAPEL DOS EMERGENTES: "A globalização é uma realidade. O desafio é fazer esse processo de forma inclusiva e equitativa, o que requer a reforma das estruturas globais políticas e econômicas. Acredito que os países em desenvolvimento, trabalhando juntos, podem ter um papel relevante na construção do sistema global político e econômico".

CÚPULA: "É minha primeira visita ao Brasil, país que sempre admirei. Tenho vários amigos brasileiros e acredito que a diplomacia brasileira é a mais profissional do mundo. Sempre fui muito influenciado pelo trabalho de alguns economistas brasileiros no entendimento do processo de subdesenvolvimento. Eu sinceramente acredito que Índia, Brasil e África do Sul têm muito a fazer juntos."

RICOS X POBRES: "A contínua e forte solidariedade, desde 2003, entre as nações do G-20, em particular Brasil e Índia, levou esses dois países ao centro das negociações sobre agricultura. As propostas do G-20 conquistaram o amplo apoio de outros países em desenvolvimento e até de nações ricas. O G-20 já propôs o limite para os compromissos dos países em desenvolvimento nas discussões sobre acesso a mercados agrícolas. Esses compromissos contrabalançam aqueles que o G-20 busca junto aos países ricos sobre exportações, concorrência, benefícios domésticos e acesso a mercado. Até o momento, os ricos não atingiram as expectativas do G-20, especialmente com relação aos subsídios que distorcem o comércio."

O contraste entre a exuberância e a pobreza

País precisaria crescer ainda mais

NOVA DÉLHI. O percurso de 253 quilômetros entre a capital Nova Délhi e a turística Agra, onde se encontra o ícone indiano Taj Mahal - um exuberante túmulo de mármore feito pelo imperador Shah Jahan, para a sua quarta e preferida esposa - é feito em longas cinco horas, devido ao caótico trânsito, acentuado nos arredores das pequenas vilas que surgem ao longo da estrada. O contraste já começa entre o asfalto bem cuidado da rodovia e os charcos - castigados mais ainda nesta época das monções - que abrigam barracos, muitos deles cobertos por plásticos, onde indianos pobres moram, improvisam comércio e tentam sobreviver. No meio da lama, cachorros, vacas e muito lixo disputam espaço com feiras populares, onde uma multidão vende de tudo, de comidas aos coloridos saris.

A pobreza é impressionante, mesmo para brasileiros acostumados com o avanço das favelas nas grandes metrópoles. Talvez porque na Índia ela fique mais exposta. Talvez porque o que se encontra no fim da estrada sejam lindos monumentos. Talvez apenas por ela ser muito mais numerosa.

O governo indiano acredita que repetirá, em 2006, o ritmo de crescimento em torno dos 8% do Produto Interno Bruto (PIB) registrado nos últimos dois anos, mas sabe que precisa alcançar a taxa de 10% ao ano para conseguir, em duas décadas, acabar com a

colossal pobreza. Hoje, 260 milhões de indianos - de uma população de 1,1 bilhão - vivem com menos de US$1 por dia, enquanto o país comemora o resultado da sua expansão econômica, com crescentes investimentos no exterior, o que reforça a expectativa do governo de fazer da Índia um "tigre asiático".

- A Índia foi conhecida por muito tempo como o país dos palácios, dos marajás e, no outro extremo, como o país pobre, de ladrões. Um país sujo - lamenta o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Navtej Sarna. - Mas as conquistas da Índia nos últimos tempos falam por si só. (Sonia Soares, enviada especial)

(*) SONIA SOARES é editora de Economia e viajou a convite do governo indiano