Título: SEM ACERTAR CONTAS COM PASSADO
Autor: Alan Gripp e Ilimar Franco
Fonte: O Globo, 07/09/2006, O País, p. 3
PT e PSDB gastam menos mas declaram ter arrecadado bem mais que em 2002
As prestações parciais de arrecadação das campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, divulgadas ontem e enviadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revelam uma contradição. Apesar das regras eleitorais que restringiram os gastos este ano, as duas campanhas declaram hoje, oficialmente, arrecadação bem maior que as de 2002, considerando o mesmo período ¿ julho e agosto. Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, a discrepância pode indicar que a prática do caixa dois naquele ano foi ainda maior do que o revelado, embora não haja prova disso; e que, este ano, os partidos estão mais cuidadosos.
Levantamento feito pelo GLOBO mostra que o comitê financeiro de Lula declarou ter arrecadado, nos dois primeiros meses da atual campanha, quase três vezes mais do que no mesmo período de 2002. Até 31 de agosto daquele ano, o partido informou ao TSE ter recebido pouco mais de R$6 milhões. Aplicando-se a inflação no período, esse valor equivale hoje a R$8,2 milhões. Ontem, o PT declarou à Justiça ter arrecado, em julho e agosto deste ano, R$22,6 milhões ¿ aumento de 173% em relação a 2002.
O PSDB também declarou ontem, oficialmente, ter este ano uma campanha à Presidência mais rica do que a de 2002, quando tentou eleger José Serra. Em julho e agosto daquele ano, o partido disse à Justiça Eleitoral que arrecadou R$14,2 milhões (em valores já corrigidos pela inflação). Este ano, no mesmo período, o valor saltou para R$21 milhões, segundo a declaração entregue ontem ao TSE. O aumento foi de 47,6%.
Em 2002, o PDT, que tenta eleger Cristovam Buarque, não teve candidato a presidente e apoiou Lula. O PSOL, da candidata Heloísa Helena, ainda não existia ¿ foi criado em 2004. Este ano, a arrecadação feita até agora e declarada pelos quatro principais candidatos soma R$44,7 milhões. O valor representa 22,4% da previsão total de gastos apresentada à Justiça Eleitoral no início da corrida eleitoral por eles ¿ R$199 milhões.
O salto dos gastos ocorre após a aprovação este ano, no Congresso, da reforma para reduzir os custos das campanhas eleitorais. As novas regras proibiram, por exemplo, o uso de outdoors, a distribuição de camisetas, bonés e brindes, e, principalmente, dos showmícios. Nas eleições de 2004, dirigentes do PT declararam ter gastado mais de R$2 milhões só com a contratação de medalhões da música brasileira. A dupla Zezé di Camargo & Luciano cobrou, à época, R$75 mil por cada show. No mesmo ano, o PT fez uma dívida de R$12 milhões com a Coteminas, do vice-presidente José Alencar, com a confecção de 2,75 milhões de camisetas.
O tesoureiro da atual campanha, José de Filippi Júnior, não explicou a discrepância entre os números de 2002 e 2006, mas reconheceu que os partidos estão mais cautelosos este ano. Filippi disse ter escalado três funcionários apenas para verificar a origem das contribuições feitas ao partido e afirmou, sem revelar detalhes, ter devolvido R$30 mil doados por uma fundação que, pela lei eleitoral, não poderia ter feito o repasse.
¿ Isso vem acontecendo com todos os partidos. O cuidado tem sido maior. Estou fazendo uma luta danada para que tenhamos uma arrecadação oficial ¿ afirmou Filippi.
Petistas e tucanos falam de ¿campanha modesta¿
O presidente do PT, Ricardo Berzoini, lança mais dúvidas sobre os números ao dizer que esta campanha é mais barata que a anterior.
¿ Estamos procurando fazer uma campanha modesta, sem exageros. Há estados que estão reclamando (da falta) dos repasses de dinheiro ¿ afirmou.
Coordenador da campanha do tucano Geraldo Alckmin, o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) não quis comentar a contradição entre os valores das duas campanhas e limitou-se a dizer que os recursos foram obtidos de forma legal:
¿ A nossa arrecadação é exatamente essa. Não tem um tostão que não seja legal, e estamos fazendo uma campanha modesta.
Para o diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Claudio Abramo, o aumento dos gastos oficiais pode indicar que a prática do caixa dois em 2002 foi maior do que se imagina. Ele considera surpreendente que a campanha de Lula, com a máquina do governo a seu favor, tenha quase triplicado a arrecadação oficial. Mas não descarta que o caixa dois continue existindo.
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¿ É muito provável que os valores declarados em 2002 estejam subdeclarados. Embora seja uma especulação, ela pode ser muito distante da realidade. É óbvio que o Lula gastaria muito menos do que em 2002 ¿ disse.