Título: `O PT, O PSDB, TODOS DEBATEM SEGURANÇA DE MANEIRA INFANTIL¿
Autor:
Fonte: O Globo, 07/09/2006, O País, p. 14
Candidato tucano ao governo do Estado do Rio, Eduardo Paes defende despolitização e `blindagem¿ da polícia, com o veto a indicações políticas para os cargos de comando
Na defesa de um novo enfoque sobre a segurança pública, o tucano Eduardo Paes, candidato ao governo do Estado do Rio, não poupa sequer seus aliados. Para ele, petistas e tucanos demonstram imaturidade quando se desentendem em torno do tema. Paes criticou a atuação do governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), que rejeitou a oferta de ajuda federal durante a onda de atentados contra o estado desde maio.
¿ Eu acho ridículo. Acho todos umas crianças debatendo segurança. O PT, o PSDB, os governantes, todos debatem de maneira infantil ¿ afirmou o deputado federal em entrevista ao GLOBO.
Paes defendeu o que chama de ¿blindagem¿ da pasta de segurança contra interferências de políticos. O antídoto seria, segundo ele, o veto às indicações de deputados na polícia.
O estado, afirmou, vem sendo maltratado ¿pelos dois partidos protagonistas da cena política nacional¿. Ex-aliado do prefeito Cesar Maia (PFL), Paes disse que o prefeito ¿aposta no impasse¿ entre estado e União.
O candidato foi entrevistado pelo editor-executivo Ascânio Seleme; pelos editores Silvia Fonseca (O País) e Paulo Motta (Rio); pelo editor-adjunto Tadeu de Aguiar (Esportes); pelos editores-assistentes Lucila de Beaurepaure (Economia) e Letícia Helena (Bairros); e pelos repórteres Fellipe Awi e Maiá Menezes.
Geraldo Alckmin
Por que a candidatura do tucano Geraldo Alckmin não teve espaço na sua campanha na TV no Rio?
EDUARDO PAES: Tenho tempo curto de televisão, e meu maior problema é o desconhecimento. Portanto, tento usar a maior parte do meu tempo para colocar a minha cara e me apresentar, mas em todos os programas o Alckmin aparece. Não dando declaração, mas tem a imagem dele bem focada. O Rio pode não ser o melhor estado para ele, mas aqui a posição dele nas pesquisas é melhor do que a minha. Minha intenção nos próximos dez programas é intensificar a presença do Alckmin, mostrá-lo mais.
Desconhecimento
O desconhecimento do eleitorado não é maior porque o partido não tem puxadores de votos no Rio?
PAES: O partido tem bons nomes na chapa, certamente vamos fazer uma bancada grande para a Assembléia Legislativa, vamos fazer um número bom de deputados federais. O Zito é um fenômeno na Baixada, mas a questão do desconhecimento, infelizmente, não se limita só ao interior. Na capital também. A candidatura que está fora dos pólos tradicionais da política do Rio é a nossa. A da Denise vem com o pólo do Cesar, e a do Cabral, com o Garotinho. O Crivella está mais colado no Lula.
Mas nem sua atuação na CPI dos Correios superou esse desconhecimento?
PAES: Para a população é aquela história: são todos senhores engravatados, geralmente um chamando o outro de corrupto. Nunca tive a expectativa de que a CPI fosse ter me dado um nível de conhecimento acima do que eu tinha. É claro que me deu uma outra dimensão, mas popularidade, conhecimento, eu nunca tive essa expectativa não.
Divisão da oposição
O que determinou a divisão da oposição no estado?
PAES: A política do Rio, quando me lancei candidato, estava dividida entre tudo que a gente quer ver longe: sanguessugas, mensaleiros, garotinhos, todos em torno da candidatura de Cabral, que é a síntese dessa entrega da máquina pública como forma de amealhar espaços de poder, e do outro lado, algo que é tão ruim quanto ou até pior que é a negação da política. Seja pela fé, como é o caso da candidatura de Crivella, ou porque era charmoso negar a política, como a da Denise Frossard. Eu tenho o maior orgulho de ser político, do que eu fiz nos meus 15 anos de vida pública.
Tucanos no Rio
Por que o PSDB tem uma presença expressiva em São Paulo e em Minas, mas não no Rio?
PAES: Os partidos fortes aqui, necessariamente, são os do prefeito e do governador. Hoje, o PFL e o PMDB. Nesses oito anos, o PDT já foi relevante, o PSB e agora, o PMDB, que é onde está o governo do estado. Os dois partidos protagonistas da cena política nacional trataram o Rio de Janeiro mal. O PT, claramente, quando entregou o governo do estado ao Garotinho. Eu já disse: o PSDB do Rio não será instrumento de troca para o jogo nacional do PSDB. O Rio tem uma relevância enorme, porque em São Paulo e Minas, o PSDB opta pelo seu melhor quadro e aqui, vamos ficar num jogo de alianças para favorecer a eleição presidencial?
Cesar Maia
O senhor se sentiu traído quando o prefeito Cesar Maia lançou a candidatura de Denise Frossard?
PAES: Fiquei surpreso, porque o que eles falavam um do outro eram coisas absurdas, mas traído não. Em 2004, a Denise Frossard dizia que Cesar Maia era responsável pela morte das pessoas. Fiquei surpreso porque uma das pré-condições para o Cesar Maia apoiar a candidatura do Alckmin aqui no Rio foi que o PSDB não apoiasse a candidatura da Denise Frossard. Com carinho, eu acho o Cesar Maia um quadro político fantástico, um excepcional administrador, mas acho que ele aposta hoje num impasse aqui no Rio, que mantenha essa polarização. Acho que o Cesar e o Garotinho é uma relação Bush, Bin Laden, um precisa do outro para sobreviver. E é danoso para o Rio.
O senhor sempre elogia Cesar Maia como administrador. Ele seria um modelo de administração para o estado?
PAES: Não é modelo. Talvez na fase pré-cibernética, na fase pré-jornalística, pré-virtual, pré-blog (risos). Cesar é um gestor competente, tem serviços prestados. Não tenho o menor problema com meu passado.
Reeleição do Lula
O ex-presidente Fernando Henrique chegou a sugerir que Lula renunciasse à reeleição. José Serra foi contra essa posição, dizendo que ele deveria ser julgado pelas urnas. O senhor acha que o PSDB errou?
PAES: Fazem essa indagação o tempo todo, como se fosse obrigação da oposição ter pedido o impeachment do presidente Lula. Os elementos jurídicos estão aí colocados, mas nunca houve clima político para isso. Se a oposição errou, foi quando fez uma reunião para dizer que não ia pedir o impeachment. Me assusta nesse momento é um pouco dessa legitimação da bandalheira. Acho que é o risco dessa eleição do ¿todo mundo pode¿. O Congresso, quando não cassou os mensaleiros, disse para a população: ¿vocês são uns bobos. Nós roubamos, mas mesmo assim, vocês vão nos reeleger¿. Dificilmente o Congresso cassa algum dos sanguessugas. Se cada um tiver um amigo já está resolvido o problema. É a chance da população: cassar os sanguessugas no processo eleitoral.
Bandeira da ética
Em que momento o senhor acha que o PSDB perdeu a chance de tomar a bandeira da ética do PT?
PAES: Não acho que a ética é uma bandeira. Devia ser pressuposto na atividade pública. Eu nunca usei a bandeira da ética, mas me esforço para ser ético, honesto e não ter de ficar me explicando toda hora. Mas se apresenta diante mim uma situação de algum delito, eu busco investigar, como fiz na CPI. O que se está vendo é que todos os partidos, de novo, com exceção do PSDB, estão enrolando, empurrando com a barriga, para ver se o cara se reelege e as pessoas esquecem.
Segurança
Quais são os pontos principais de seu programa para a área de segurança?
PAES: Quero despolitizar esse assunto. No Rio, a questão foi partidarizada, virou instrumento de troca política e sempre foi trada como função de estado e não de governo. A questão é como blindar a segurança pública. Eu proponho o mandato para o secretário de segurança, de três anos, com metas. Eu gostaria de colocar um gestor ou um promotor na área da Segurança Pública. . Tem que melhorar a remuneração, comprando o bico. E punir o mau policial. Vamos priorizar a zona turística, trabalhar com a lei seca, com horário para funcionamento de bares. O Rio tem que ter corregedoria fora da Secretaria de Segurança. O caveirão deve ser um instrumento de defesa do policial, não para oprimir a comunidade. Ninguém está combatendo o tráfico. A agência reguladora do tráfico , que é a polícia, vem e diz como cada facção criminosa deve atuar nas comunidades.
O senhor agiria diferente do governador de São Paulo, Cláudio Lembo, nos últimos episódios em São Paulo?
PAES: Totalmente. Eu acho ridículo. Acho todos umas crianças debatendo Segurança. O PT, o PSDB, os governantes, todos debatem de maneira infantil. A gente devia estabelecer aqui no Rio que os candidatos a governador isso fizessem um pacto. Que tipo de política é essa? Quantas vezes vemos esse joguinho de cara feia? Cem dias, seis meses. Essa não é a luta de nós contra nós, mas da sociedade.
Hoje em dia, o cargo de Segurança Pública se tornou o principal cargo das administrações estaduais. Isso não dá uma dimensão política ao cargo?
PAES: Dá, mas precisamos adequar. A gente tem que mudar esse paradigma da discussão sobre segurança pública.Veja o documento da Anistia Internacional. A política de segurança tem que ser permanente. Essa é a sacada do documento. É óbvio que os governos têm que conversar. O debate político precisa ficar mais maduro. Temos que ultrapassar essa imaturidade dos políticos mais velhos, rancorosos, cheios de conflitos.
Finanças públicas
Quais suas propostas para sanear as Finanças do estado?
PAES: O rombo, pelos nossos cálculos, chega a R$3 bilhões. O Rio tem a carga tributária e não dá para aumentar. A arrecadação vem caindo. Isso se deve também ao fato de que a máquina arrecadadora virou instrumento de barganha política. É preciso despartidarizar a máquina do estado. É preciso introduzir novos mecanismos de fiscalização, para recuperar a capacidade arrecadadora. O outro lado é o lado do ralo, por onde sai, o custeio, as terceirizações. Eu sou a favor das terceirizações nas atividades-meio, mas não nas atividades-fim. Vamos reduzir o número de secretarias de vinte e nove para onze. A máquina do estado hoje funciona sem nenhum critério de resultado, de metas. Ninguém sabe quantos cargos em comissão há no Rio. Além disso, o governador quer sempre ser um prefeito de luxo da capital.
O senhor vai manter a política de incentivos fiscais a grandes empresas no estado?
PAES: Há quatro elementos fortes que levam à perda de protagonismo econômico do Rio. Violência, carga tributária elevada, o custo Rio de Janeiro ¿ que mistura burocracia com corrupção ¿ e os problemas de infraestrutura. O estado do Rio só investe mais do que o Amapá. No Brasil inteiro, a média de investimentos é de 8% da Receita. Aqui é 4%. A nossa lógica é trabalhar com os arranjos produtivos locais. Sem dúvida eu faria uma revisão desses incentivos fiscais. Há aquilo que é justificável e óbvio, como o incentivo ao pólo petroquímico de Friburgo. Mas aquilo que nem o governo do estado sabe explicar não vai se repetir, não.
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