Título: EM 2006, ELEITORADO DO PETISTA MUDA DE PERFIL
Autor: Mariza Louven
Fonte: O Globo, 10/09/2006, O País, p. 8
Presidente aumenta popularidade entre os mais pobres e se afasta da classe média mais instruída
O aposentado Paulo Campani, de 63 anos, votou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Hoje, diz que nunca mais vota no PT e nem em qualquer candidato apoiado pelo partido. Este ano seu voto é de Heloísa Helena (PSOL). O motorista Kenned Cavalcanti, de 30 anos, votou em José Serra (PSDB) na última eleição, mas este ano vai votar em Lula.
Paulo e Kenned são de municípios vizinhos (Niterói e São Gonçalo), mas têm posições radicalmente opostas na política nacional, explicadas pelos níveis de renda e instrução de cada um. Eles representam uma mudança significativa no perfil do eleitorado do presidente Lula desde que disputou a Presidência pela primeira vez, em 1989.
Votos no Nordeste passam a ser maioria
Hoje, de acordo com um levantamento inédito feito pelo Ibope, apenas 11% dos eleitores de Lula recebem mais de cinco salários mínimos. Em 89, eles eram 32%. Por outro lado, o presidente aumentou sua popularidade entre os eleitores mais pobres (que ganham até dois salários) ¿ de 37% em 89 para 56% em 2006.
A relação com o nível de escolaridade é direta. Este ano, 6% dos eleitores de Lula têm nível superior, enquanto que em 89 eles somavam 11%, mesmo percentual que ele tinha naquele ano entre os eleitores que possuíam até a 4ª série do ensino fundamental e que agora somam 35%.
Como a concentração de eleitores com menor renda e escolaridade é no Nordeste, a maioria dos votos do presidente agora está nessa região, mas as principais mudanças em relação a 89 foram nas regiões Sul e Sudeste. Na primeira, Lula chegou a ter 49% dos votos em 89 e hoje tem 11%. No Sudeste, o movimento foi inverso: Lula tinha 6% dos votos e agora tem 38%.
A popularidade entre os eleitores mais pobres e menos instruídos e, conseqüentemente no Nordeste, aumentou notadamente a partir de 2002, quando Lula assumiu o poder. Desde 1994, Lula sempre teve a maioria de seus votos no Sudeste. Em 89, foi na região Sul.
Comparando os seus votos com os de outros candidatos por região, Lula chega a ter 69% das intenções no Nordeste, contra 13% de Geraldo Alckmin e 8% de Heloísa Helena. Em 2002, ele tinha 37%, contra 22% de Ciro Gomes, 15% de José Serra e 10% de Anthony Garotinho. A região representa 27% do total do eleitorado do país, contra 44% do Sudeste e 15% do Sul.
Do mesmo modo, foi entre 2002 e 2006 que houve uma involução mais acentuada entre os eleitores mais ricos e instruídos: de 26% para 11% e de 12% para 6%, respectivamente. A diferença é que Lula ganhou muito mais votos na primeira ponta do que perdeu nessa segunda mais rica e escolarizada e que representa a menor fatia do eleitorado.
¿Bolsa Família teve a mesma importância do Plano Real¿
Kenned Cavalcanti é um exemplo de eleitor na primeira ponta. Morador de São Gonçalo, ele vive hoje de um bico como motorista, mas viu crescer o número de empregos no estaleiro ao lado de sua casa. Além disso, seus três irmãos foram beneficiados pelos programas Bolsa Família e Bolsa Escola, carros-chefes do governo federal.
¿ Lula abriu as portas de emprego. Os estaleiros estavam fechados ¿ diz, justificando o seu voto.
Na outra ponta, em Niterói, vive o aposentado Paulo Campani, que viu em quatro anos a ¿última esperança¿ se transformar em ¿desilusão¿:
¿ Tenho vontade de colar um adesivo no meu carro com a frase ¿Detesto corrupto¿ e com as letras p e t grafadas em caixa alta e em vermelho. O meu desencanto não é com a figura Lula, porque ele não é uma pessoa preparada. A minha grande decepção é com o Partido dos Trabalhadores, que mostrou que não mede os meios para atingir os seus objetivos. Jamais votarei no Lula ou em qualquer candidato apoiado pelo PT ¿ protesta Campani.
Desde a redemocratização do país, nunca houve tamanho abismo entre Paulo e Kenned. É a primeira eleição em que há uma distinção tão forte entre as aspirações dos eleitores de classe média e as da camada mais pobre da população.
¿ Lula sempre teve uma distribuição de votos homogênea. É a primeira eleição em que essa diferença é mais acentuada ¿ explica a diretora do Ibope Opinião, Márcia Cavallari.
Segundo o cientista político Marcus Figueiredo, do Iuperj, os programas sociais do governo e a inflação sob controle o aproximaram ainda mais das camadas mais pobres da população, enquanto que os episódios envolvendo a questão ética o afastaram da classe média mais instruída.
¿ O Bolsa Família tem para Lula a mesma importância que o Plano Real teve na eleição de Fernando Henrique em 1994. Já a classe média intelectualizada ficou decepcionada com o PT e está votando em Heloísa Helena.