Título: Cocaína em baixa, violência em alta no Sudeste
Autor: Antônio Werneck
Fonte: O Globo, 10/09/2006, O País, p. 22

Traficantes estão com pouca droga para negociar e, para obter renda, passaram a fazer assaltos e seqüestros

Os primeiros sinais apareceram este ano no Rio, mas encontraram eco em outros estados da Região Sudeste. Monitorando conversas de traficantes de uma favela na Zona Norte, policiais ficaram surpresos com o inusitado diálogo de um deles, travado com um colega de crime que estava em outro ponto da Cidade Maravilhosa. Ele não discutia detalhes para uma ação criminosa, mas pedia ao colega que conseguisse um pouco de cocaína para seu próprio consumo. A droga estava faltando no morro até para alimentar sua dependência.

Relatos semelhantes foram ouvidos por policiais em São Paulo e no Espírito Santo: os traficantes do Sudeste estão tendo dificuldades para conseguir cocaína e maconha. Com pouca droga para negociar, estão migrando para outras fontes de renda como assalto a bancos, roubo de carros e seqüestros-relâmpagos.

Quantidade de cocaína na Região Sudeste caiu

O assunto passou a ser discutido por policiais federais após a confecção de um inédito mapa traçado a partir das apreensões de drogas em dez anos de repressão em todo país. Entre 1995 e 2005, a Polícia Federal recolheu do tráfico nada menos que 143 toneladas de cocaína pura e mais de mil toneladas de maconha. Como uma radiografia do tráfico e do consumo no Brasil, o levantamento da PF revelou que entre 2000 e 2005 a quantidade de cocaína e maconha recolhida na Região Sudeste despencou e passou a faltar nos pontos de venda.

Em 2000 foram apreendidas cerca de 25 toneladas de cocaína e 121 toneladas de maconha nos estados de São Paulo, Rio, Minas Gerais e Espírito Santo. Ano passado, a PF apreendeu apenas quatro toneladas de cocaína e 17 toneladas de maconha no Sudeste.

O mapa da Polícia Federal foi feito pelos agentes da Coordenação Geral de Polícia de Repressão a Entorpecentes (CGPRE), unidade central da repressão às drogas no país. Ele mostra ainda que o consumo de drogas está mudando no país. Um exemplo são as crescentes apreensões de drogas sintéticas, como o ecstasy. Há dez anos (95) não constava nas estatísticas da PF sequer uma só apreensão de ecstasy em todo território nacional. Ano passado foram apreendidos no país 52.424 comprimidos.

Hoje, o tráfico de drogas sintéticas é o que mais preocupa as autoridades federais. Para os policiais que analisam os números, a busca de recursos para adquirir ecstasy ¿ uma droga considerada cara¿ pode explicar o aumento do envolvimento de jovens da classe média alta com o crime.

O delegado federal Hebert Mesquita, da CGPRE, explicou que o consumo de droga sintética é objeto de crescente preocupação. A droga sintética, segundo ele, ¿dispensa condições geográficas (clima, altitude) e culturais (vocação popular e apoio governamental) peculiares de países andinos na produção de cocaína (como Bolívia, Colômbia e Peru), sendo produzidas em regiões urbanas, que não demandam vastas áreas de plantação¿.

¿ Outro fator importante é o tamanho que a carga de droga sintética assume, algo bem menor que as cargas de maconha e cocaína. Isso facilita o transporte e dificulta a ação policial ¿ afirmou Hebert.

Outra descoberta da PF foi a presença das chamadas drogas pesadas nas recentes apreensões. Muito consumida nos anos 70, o LSD e a heroína ¿ que praticamente não apareciam nas estatísticas de dez anos atrás ¿ estão de volta ao mercado brasileiro em grande quantidade. Enquanto em 1995 a presença de LSD e heroína nas estatísticas era insignificante, ano passado a PF apreendeu 927 pontos de LSD e 13,5 quilos de heroína. Assim como o haxixe: em 1995 foram recolhidos seis quilos; ano passado as apreensões da droga pularam para 94,7 quilos.

Tráfico está migrando para outras regiões do país

O mapa da PF apresenta o perfil das apreensões em cada região do Brasil. Revela também que os traficantes estão migrando para Amazonas, Acre e Rondônia, estados que ficam mais próximos dos países produtores de cocaína (Bolívia e Colômbia). Em 1995, por exemplo, os policiais apreenderam 400 quilos de cocaína na Região Norte e quase duas toneladas na Região Sudeste. Ano passado o quadro mudou: na Região Norte foi apreendida a mesma quantidade de cocaína da Região Sudeste: 4,3 toneladas.

Na opinião de Hebert e de outros policiais federais, os grandes carregamentos têm se tornado mais raros no eixo Rio-São Paulo. Diferentemente do que acontece no Norte do país, onde as apreensões mais recentes quase sempre são de mais de cem quilos.

¿ Menos droga tem chegado ao Rio e isso revela um sucesso da repressão policial na Região Sudeste. O que têm feito as organizações criminosas? Estão atuando no Norte. Cidades como Manaus, por exemplo, experimentam grandes investimentos decorrentes da lavagem de dinheiro ¿ disse Hebert.

A mudança no mapa das drogas apareceu nas estatísticas dos pesquisadores do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes. Eles identificaram nos últimos anos aumento do número de crimes contra o patrimônio no Rio. Assalto a transeunte, por exemplo, passou de 17.884 registros em 2003 para 36.080 em 2005. O número de assaltos no interior de coletivo subiu de 4.653 (2003) para 7.469 (2005) e os de seqüestros-relâmpagos, de 26 (2003) para 110 (2005).