Título: Supersafra de maconha rumo a São Paulo e Rio
Autor: Antonio Werneck
Fonte: O Globo, 10/09/2006, O País, p. 23
Agentes federais investigam rotas de entrada da cocaína colombiana e aumento de tráfico de lança-perfume no Brasil
Uma supersafra de maconha plantada no Paraguai está a caminho do Rio e de São Paulo. A descoberta foi feita pelos agentes da Polícia Federal de Brasília. Eles acreditam que as recentes operações (duas este ano) de erradicação da droga na região conhecida como Polígono da Maconha ¿ realizadas pelas polícias Federal e Militar na Bahia e em Pernambuco, na Região Nordeste do país ¿, vão obrigar os traficantes a uma corrida em direção ao mercado paraguaio. Cerca de 70% da maconha consumida no Brasil é plantada no Paraguai e entra no nosso território via Paraná e Mato Grosso do Sul, seguindo para as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Os demais 30% de maconha são produzidos nos sertões da Bahia e de Pernambuco; no Maranhão, no Pará; e em focos do Piauí e do Amazonas. Com operações no Nordeste, a tendência é que aumente a proporção da maconha produzida no Paraguai e importada pelo Brasil.
Segundo a PF, há uma preocupação muito grande com a cocaína produzida em países andinos como Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. A cocaína colombiana ¿ considerada a de melhor qualidade ¿ entra no Brasil pela fronteira Roraima-Venezuela, por Letícia, fronteira com a Colômbia e por Tabatinga (Amazonas), além de rotas secundárias em Rondônia e no Acre. A PF também identificou uma rota que vem sendo adotada nos últimos anos, que utiliza o Paraguai.
Segundo os agentes do setor de Inteligência Policial da Coordenação Geral de Polícia de Repressão a Entorpecentes (CGPRE) da PF em Brasília, o tráfico tem se intensificado no eixo Amazonas-Belém, saindo por via portuária de Belém e São Luís. Outra rota é o tráfico para exportação. A cocaína passa pelo Brasil e segue para os EUA ou para a Europa por via aérea saindo por Recife, Fortaleza, Natal e Salvador, onde são muitos os vôos charter.
Traficantes internacionais usam Brasil como passagem
Para a PF, o crescimento das apreensões de heroína direcionadas para o mercado brasileiro é conseqüência do uso, por quadrilhas de traficantes internacionais, do Brasil como rota de passagem. O assunto é tão sério que o setor de Inteligência Policial da CGPRE criou a Operação Plataforma depois que a Colômbia, grande produtor de cocaína, passou a produzir em larga escala também heroína; e o México, outro grande produtor, intensificou o tráfico e passou a usar novas rotas, incluindo o Brasil.
Os policiais que atuam no combate ao tráfico de heroína em todo o país monitoram de perto empresas de produtos químicos suspeitas de ligações com as quadrilhas. A Operação Plataforma tem tentáculos em outros países latinos e conta com recursos do governo americano, enviados ao país por meio de convênios firmados este ano entre a PF e a Drug Enforcement Administration (DEA), a agência americana de combate às drogas.
Outra preocupação é o aumento de traficantes de lança-perfume no país. Em dez anos, as apreensões da droga passaram de dez mil fracos (95) para 51 mil (2005), com pico de 71 mil frascos recolhidos em 2004. O tráfico cresceu tanto que a unidade central da PF em Brasília, que combate principalmente os grandes traficantes de cocaína e maconha, passou a investigar quadrilhas internacionais de lança-perfume. Elas seriam responsáveis pelo financiamento de grandes operações que começariam na Argentina, passariam pelo Paraguai e envolveriam grupos organizados de distribuição no Rio e em São Paulo.