Título: `A PM HOJE É UMA FÁBRICA DE BANDIDOS E TOLERA A CORRUPÇÃO¿
Autor:
Fonte: O Globo, 12/09/2006, O País, p. 10
Candidato do PT, Vladimir promete desmilitarizar a estrutura das polícias Civil e Militar, diz acreditar que crescerá nas pesquisas e que o Rio precisa de uma `liderança política¿
O candidato do PT a governador, Vladimir Palmeira, diz que o Rio não precisa de um mero administrador ¿ ¿O cabra tem que saber administrar, mas o Rio precisa é de uma liderança política¿. Quarto entrevistado da série de sabatinas promovida pelo GLOBO com os candidatos ao governo do estado, ele atacou adversários como Marcelo Crivella (PRB), Denise Frossard (PPS) e Sérgio Cabral (PMDB) e a gestão Rosinha Garotinho. Referiu-se a Crivella na entrevista como ¿O bispo¿, embora minutos antes tenha falado em ¿Crivellinha¿. Para ele, ¿O bispo¿, que também tem o apoio do presidente Lula, é o candidato de uma igreja (a Universal do Reino de Deus), e seu partido é ¿de ficção¿. Vladimir só poupou o PDT e o PSOL, mas disse os ex-petistas hoje abrigados no PSOL fizeram uma opção pela marginalidade política, pois não acredita que o novo partido ultrapassará a cláusula de barreira. Disse ainda que os escândalos no governo Lula não atrapalham sua campanha, mas afirmou que esta é uma marca que o PT terá de carregar. Além de defender um líder no Palácio Guanabara, que possa estabelecer alianças e conversar com outros estados e o governo federal, prometeu desmilitarizar a estrutura das polícias. Para o petista, a PM hoje é uma ¿fábrica de bandidos que tolera a corrupção¿. Vladimir foi entrevistado pelo editor-executivo Ascânio Seleme, pelos editores Silvia Fonseca (O País) e Paulo Motta (Rio), pelos editores-assistentes Carter Anderson (O País), Lucila de Beaurepaire (Economia) e Ana Perrone (Jornal de Bairros) e pelos repórteres Paula Autran e Rodrigo March.
Não causa constrangimento a manifestação de apoio explícito que o presidente Lula tem dado a Marcelo Crivella, apesar da sua candidatura?
VLADIMIR PALMEIRA: O presidente Lula não o apóia. Ele tem dois palanques no Rio. Acho muito bom ter dois palanques, para o Lula. A reeleição dele é o principal para nós. E não dependo do Lula para ser governador do Rio. Se eu tiver propostas, se eu tiver um bom programa de TV, se o PT tiver militância suficiente, nós vamos chegar lá. Acabamos de passar para o quarto lugar. Vamos crescer neste final de campanha. O apoio do Lula é bom, mas não é decisivo. Por isto, o bispo está parado. Só bota propaganda dizendo que é o candidato do Lula. Se o Sérgio Cabral dissesse que era candidato do Lula, acho que o Lula devia aceitar também. Isto não me constrange.
Segundo turno
Mas em um eventual segundo turno entre Sérgio Cabral e Crivella, o senhor apoiaria Crivella?
VLADIMIR: O Lênin dizia que política é a análise concreta de uma situação concreta. Analiso esta situação concreta e acho que vou para o segundo turno. E diria que o bispo não vai de jeito nenhum. Estou numa curva ascendente. Tenho sentido uma grande receptividade, na Baixada, na Zona Oeste, em São Gonçalo. E esta simpatia uma hora se transforma em intenção de voto. Temos 45% de eleitorado indeciso, na pesquisa espontânea. De grão em grão, vou chegando lá. Passei o (Eduardo) Paes, e o meu objetivo é a (Denise) Frossard. O Crivella vou passar de passagem, porque ele fica parado. Ele teve uma votação alta no início, mas depois enfrentou rejeição muito grande. Ele mesmo declarou que não tem partido, o partido dele é uma ficção, é a Igreja Universal. É difícil para ele crescer.
Ajuda de Lula
O senhor disse que o presidente Lula ajuda pouco a sua campanha. O senhor acha que ele pode, por outro lado, atrapalhar, pelos escândalos em que o governo dele se envolveu no ano passado?
VLADIMIR: Se eu não fizer a minha parte, não adianta ajuda do Lula. Mas também não prejudica, porque se prejudicasse ele era o primeiro a estar lá embaixo nas pesquisas. E ele está reeleito, não tenho dúvida. Há realmente no Rio, um estado onde a classe média tem um peso muito grande, restrições ao Lula e ao PT pelas acusações de mensalão. Mas é uma faixa residual. No Rio não se abre uma alternativa para um projeto de esquerda ao Lula. Os dois candidatos que tentam ¿ Milton Temer (PSOL) e Carlos Lupi (PDT) ¿ também não conseguiram.
Escândalos
O senhor sempre acatou decisões partidárias. Em nome da disciplina, não lhe dói ter que aceitar os escândalos em que o PT se viu envolvido?
VLADIMIR:Acho que os companheiros que saíram erraram, porque tiveram uma mera reação moral para, eventualmente, impressionar uma parte da opinião pública. Eu nunca fui da bancada moralista do PT. Sempre adverti que o PT se orgulhava de ser um partido invencível quanto à imoralidade, e não era. É feito de pessoas humanas. Isso ai vai ficar na história do PT. É uma marca que o PT vai ter que carregar. Paciência! Alguns foram afastados. Mas espero que, como fruto disso, saia a reforma política. Acho que a reação moral é justa, mas, ao mesmo tempo, é insatisfatória. Claro que quem fez um delito, como o caixa dois, tem que ser punido. Minha posição foi cassar todos os companheiros do PT envolvidos em caixa dois. E não por julgamento moral, porque quem pune cometeu o mesmo crime. Mas porque eles foram pegos em flagrante, e não pode haver partido acima da lei. Mas punindo um, dois, três, o sistema continua o mesmo.
PT x PSOL
De que tamanho sai o PT desta eleição?
VLADIMIR:Espero que saia maior. Acho que nossos companheiros mais à esquerda fizeram a opção pela marginalidade política. É certo que o PSOL não vai ser um partido político com direitos plenos. Não terá condições de se legalizar, vai perder o fundo partidário, vai sair enfraquecido. Acho que é um partido de difícil viabilidade.
Segurança pública
O que o senhor faria diferente e o que manteria em relação ao governo de Benedita da Silva, a primeira governadora do Rio no PT, na política de segurança, por exemplo?
VLADIMIR: O governo Benedita foi na verdade um governo do (Anthony) Garotinho, mas com um secretariado do PT. Foram só nove meses. Acho errado tratar o governo Benedita como um governo. Houve muitos avanços na área de Educação e da Fazenda, que não ficaram, porque logo depois entrou a Rosinha. Acho que ela teve iniciativas valorosas, mesmo quanto à segurança. E os princípios adotados por Benedita são princípios adotados por mim, de investigação, de parar de invadir bairro pobre e favela, matando gente inocente com o caveirão. Minha política é tirar o caveirão. A PM deve fazer só policiamento ostensivo. Temos que fazer a ocupação social da favela, com educação, cultura, saúde e esporte. Temos que eleger uma comissão de moradores e discutir prioridades. A partir dai, ninguém entra para fazer quadrilha naquele bairro, pois a população estará solidária com você.
Fábrica de bandidos
O senhor acha que um trabalho de investigação seria suficiente para desmantelar esse poder paralelo?
VLADIMIR: Claro. Esses caras ou vão para a cadeia ou vão sair para outro canto. Precisamos acabar com a área liberada para a criminalidade, esta retaguarda do crime. Tráfico de drogas tem em todos os países civilizados. Mas com o contra-poder que existe no Rio, se pode acabar. Fazendo o que o (ex-secretário de Segurança) Hélio Luz dizia: ¿O crime tem que ser clandestino¿. No Rio o crime é aberto. A ilegalidade campeia. Havia 8.500 PMs no Rio. Garotinho aumentou para 20 mil PMs. E o louco do Sérgio Cabral disse que vai aumentar mais 20 mil. Aquilo é uma fábrica de bandido. Temos que ter uma polícia de qualidade. Eles vivem de extorsão. Quem leva a arma para a favela? Sei que há policiais honestos. E vou trabalhar com eles. A primeira providência é nomear um secretário de Segurança do ramo e honesto. A polícia tem que defender a vida. Vou criar a Faculdade de Segurança Pública, na Uerj, que vai ensinar ciências sociais e criminalística. Quem fizer este curso vai ter gratificações especiais. Este curso é um dos elementos que eu tenho para mudar a filosofia da polícia.
Arrecadação
Com que dinheiro o senhor pretende implementar esse e outros programas previstos no seu plano de governo?
VLADIMIR: Tirando a faculdade, com o dinheiro que já se tem hoje: 12% do orçamento vão para a segurança pública. Só que o dinheiro é mal gasto. Aparentemente, o déficit do estado é de R$1,5 bilhão. Vou fazer concurso para a Fazenda e aumentar a arrecadação. O Rio tem o privilégio de ter o mais alto ICMS, e arrecada menos. É mal feito, sonegam. A arrecadação, eu aumento no primeiro ano. E vou liquidar gradualmente com as terceirizações. Não posso retirar, se não param de funcionar serviços de educação e saúde. Vou tentar equilibrar este déficit no segundo ano e, quem sabe no quarto ano, pagar a dívida. Se eu conseguir vender a dívida pública, me facilitaria muito. Dinheiro para educação e saúde é carimbado. Agora, como tenho dito sistematicamente, não posso resolver o problema dos transportes, a não ser que o governo federal ajude. O mesmo em relação à habitação. Também vou fazer uma revolução na Cedae, vou reestruturá-la. Mas não pretendo privatizá-la.
Legitimidade
E para manter as empresas no estado, o que o senhor pretende fazer?
VLADIMIR: Tem que ter legitimidade para mudar o Rio. O Sérgio Cabral não tem, nem a juíza Denise Frossard e o Eduardo Paes. Porque eles são candidatos do governo ou vinculados ao Cesar Maia, que há 16 anos estão no poder e não resolveram nada. Eu não escondo minha referência política, é o governo federal. Pode haver deficiências, mas ele tem uma política. Sérgio Cabral está fazendo uma campanha de oposição, o que é indigno. Como se ele não estivesse no governo que está aí há oito anos. Eu tenho legitimidade, não compactuei com isto. Ouvi o Sérgio Cabral dizendo que vai levar o metrô para a Baixada e para Itaboraí. É mentira, não há dinheiro para isto. Quero fazer o metrô até Itaboraí, mas é mais fácil até a Baixada, porque posso fazer de superfície, num acordo com o governo federal. Mas até Itaboraí é impossível.
Brizola
Como o senhor explica que o PT, um partido forte nacionalmente, no Rio não tenha bons desempenhos?
VLADIMIR: A causa original se chama Brizola, que ocupou o espaço do PT aqui. Nós não tínhamos a tradição de um movimento trabalhista ao nosso lado. Uma parte do movimento de esquerda estava no PMDB, e da outra parte o Brizola tomou conta eleitoralmente. O peso dele é tal que hoje as múltiplas correntes políticas existentes no Rio passaram por ele: Marcello Alencar, Cesar Maia, Garotinho... todos do mesmo veio. Ele podia ter escolhido São Paulo, não é? (risos)
Assistencialismo
O senhor pretende manter as políticas assistencialistas do governo Rosinha?
VLADIMIR: Não gosto quando vocês chamam essas políticas de assistencialistas. São políticas sociais. Eu vou manter o que tem. Essas políticas não atingem um alvo específico, atingem gente que precisa e que não precisa. E fazendo a crítica ao Garotinho, faço ao governo federal, que também tem uma política de restaurantes populares. O Cheque Cidadão, eu acho bom. Só vou acabar com a distribuição dele pela igreja. Mas sou de um estado que tem problemas e déficits, e vou fazer tudo para ampliar o Bolsa Família. Enquanto eu puder usar o dinheiro do governo federal, vou usar. Para economizar o meu e, acabando com esse déficit, poder investir em coisas importantes, como segurança, educação, saúde e meio ambiente.
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