Título: EM ANO ELEITORAL, SACO DE BONDADES
Autor: Patrícia Duarte/Martha Beck
Fonte: O Globo, 13/09/2006, Economia, p. 25

Governo já lançou outros cinco pacotes, mas analistas duvidam da eficácia

BRASÍLIA. O novo pacote de habitação se soma a uma série de, no mínimo, cinco outras grandes iniciativas de incentivo à economia lançadas pelo governo a um ano da corrida eleitoral. Aumento de crédito, desoneração fiscal e mais facilidades bancárias estão entre as principais medidas adotadas pela equipe econômica, seja para alavancar alguns setores da economia, seja para incentivar a competição comercial e reduzir preços e custos de algumas áreas.

Os pacotes recentes são de vulto, medidos por bilhões de reais: desonerações de impostos de R$20 bilhões, pacote habitacional de janeiro de R$11,05 bilhões, pacote agrícola de R$15 bilhões (além do plano de safra de R$60 bilhões), renegociação de dívidas rurais de R$7,7 bilhões.

Isso sem contar medidas cambiais que podem retirar do mercado US$19 bilhões - pressionando menos o câmbio e desburocratizando as operações de comércio exterior - e os incentivos à concorrência entre bancos, com a facilitação de transferência de contas e empréstimos bancários, que movimentam dezenas de bilhões de reais.

Alguns analistas, porém, questionam a eficácia destas políticas. Para Luiz Fernando Lopes, economista-chefe do Banco Pátria de Negócios, todas as medidas juntas, somadas à queda de juros, não foram suficientes para aquecer a economia:

- Se formos analisar o impacto no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de riquezas produzidas no país) veremos que foi pífio.

Governo deveria cortar gastos e déficit da Previdência

No segundo trimestre deste ano, a economia teve expansão de apenas 0,5%. Lopes lembra ainda que os pacotes e medidas provisórias sempre trataram de pontos específicos de financiamento ou consumo, sem, entretanto, terem o impacto de reformas mais profundas, que elevam a produtividade, aumentam a formalização e reduzem a carga tributária.

- Muitas destas medidas necessitaram de esforços políticos típicos de grandes reformas, mas afetam apenas parte da economia - afirmou, lembrando que o governo deveria priorizar uma reforma tributária ampla, que altere os gastos públicos e os impostos cobrados da sociedade.

O economista ainda alerta que estas medidas podem trazer problemas a longo prazo, uma vez que incentivam o consumo sem favorecer o investimento produtivo.

Para o economista Joaquim Elói Cirne de Toledo, da USP, o governo parece ter concentrado "a abertura do saco de bondades" em época estratégica, interessante para quem está disputando eleições. Independentemente dessa avaliação política, ele lembra que nem sempre essas medidas são eficazes.

- Vejo atenção talvez excessiva do governo no crédito, como se as operações de financiamento resolvessem a totalidade dos problemas estruturais do país. O Brasil não tem capacidade de crescimento rápido porque a taxa de investimento é baixa. Nesse ponto, as medidas destes pacotes em nada ajudaram - disse.

Toledo defende medidas que reduzam o consumo - principalmente o público - como forma de se criar condições para crescimento vigoroso de longo prazo:

- O governo deve reduzir seus gastos correntes e o déficit da Previdência.