Título: O que pode evitar o mais provável
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 14/09/2006, O GLOBO, p. 2

Encerrada a semana em curso, estaremos na chamada reta final da campanha eleitoral, os 15 dias que precedem o domingo democrático, durante os quais ainda é possível acelerar o jogo e produzir alterações bruscas. Para o candidato Geraldo Alckmin, o segundo turno é cada vez mais improvável, mas ainda não é impossível. O problema é que o tempo é curto e os recursos são escassos.

Os recursos políticos, assim entendidas as possibilidades de subtrair eleitores de Lula, deveriam acontecer numa velocidade acelerada, numa proporção diária altíssima. Tendo o presidente 11 pontos percentuais de vantagem sobre o conjunto dos adversários, será preciso que ele perca pelo menos 5,5% e que os demais agreguem a mesma fração. Cerca de 6,9 milhões de eleitores teriam que trocar de lado.

O recurso político de que tem se valido Alckmin nas últimas semanas é o tom mais contundente contra Lula, tanto no plano ético como no administrativo, a exemplo das estradas esburacadas que andou mostrando. Com isso, segundo a pesquisa Datafolha de anteontem, ele dizimou o crescimento que Lula havia obtido na pesquisa anterior junto ao eleitorado de maior renda e escolaridade. Outro resultado que os tucanos celebram é o crescimento, de 24% para 29%, da taxa de rejeição a Lula. São os eleitores que não votariam nele de jeito nenhum, rochedo que sempre correspondeu, mesmo em 2002, a algo em torno de 30% dos eleitores. Houve ainda a queda, de 48% para 46%, nos índices de bom e ótimo conferidos ao governo. Seria o teto de Lula hoje, insiste Cesar Maia.

Mas quanto esse recurso político da retórica ainda pode render a Alckmin? A resposta é incerta. Já a solidez do voto dos mais pobres e menos escolarizados, segmento em que Lula reina, é indiscutível. O Nordeste é um rochedo, mas o voto do Sul tem oscilado.

Se na reta final não surgirem recursos políticos adicionais ¿ que sirvam, inclusive, para neutralizar o efeito eleitoral de atos de governo, como o pacote habitacional ¿, restará sempre a aposta no ato eleitoral. É ainda Cesar Maia que argumenta: o que ele chama de não-votos (soma de votos em branco, nulos e indecisos) chegou a 10% na última pesquisa do Datafolha. No dia da eleição, abstenção mais nulos e em branco totalizariam, segundo a tradição eleitoral, 25%.

Quatro pontos viriam da diferença entre avaliação do governo (46%) e intenção de voto (50%). Outros 11 seriam perdas distribuídas entre os candidatos, porém maiores dentro do eleitorado pobre-nordestino-pouco escolarizado de Lula, que responderiam a 70% deste total. Por esse cálculo, válidos seriam apenas 75% dos 126 milhões de votos em disputa. Descontadas as perdas, ou não-votos, Lula teria 39% contra 36% dos outros. Logo, se os demais crescerem três pontos percentuais, haverá segundo turno. Com 28%, bastaria ao tucano chegar aos 31%, podendo contar ainda com algum crescimento da senadora Heloísa Helena e dos demais.

O prefeito é um técnico em eleições, suas contas têm sentido. Mas dependem de coisas imponderáveis, como o comparecimento e o acerto da tecla na hora de votar.