Título: Entre a teoria e a prática, um abismo
Autor: Cláudio Motta e Ruben Berta
Fonte: O Globo, 16/09/2006, Rio, p. 18

Entrevistados dizem que os amigos pregam uma coisa e praticam outra

A diferença entre as lições da teoria e o que os jovens vêem na prática ao seu redor é destaque num capítulo da pesquisa ¿O jovem, a sociedade e a ética¿, do Ibope. Entre os adolescentes entrevistados, 56% disseram que as pessoas com que convivem bebem ou fumam dizendo saber que faz mal à saúde e censurando quem o faz; 55% afirmaram que as pessoas com quem se relacionam são contra a pirataria, mas compram produtos piratas; e 44% relataram que seus conhecidos estacionam em fila dupla, apesar de apregoarem que as leis de trânsito devem ser respeitadas.

Aluno da escola Dínamis, em Botafogo, onde repórteres do GLOBO promoveram uma roda de debate com estudantes do ensino médio, André Penna, de 17 anos, reconheceu que muitos pais não dão o exemplo para os filhos.

¿ Meu pai fuma e fala para eu não fumar ¿ disse o aluno do 2º ano, que, no entanto, negou que haja um grande conflito de gerações. ¿ A gente se espelha nos nossos pais, eles são nossos exemplos. Para algumas pessoas pode até ser careta ser ligado a eles, não para mim.

A opinião de André e de seus colegas de escola coincidiram, na maior parte, com as do grupo de estudantes do Colégio Estadual Souza Aguiar, no Centro, onde Estefanie Santos Mendes, de 16 anos, cursa o 1º ano do ensino médio, que também conversaram com repórteres do GLOBO.

¿ Se a família não estiver bem com a gente, nós não conseguimos ficar bem com mais nada ¿ disse Estefanie.

Violência impede que haja mais liberdade

Apesar da exaltação à família, quando os jovens se comparam aos pais, reclamam da falta de liberdade ¿ hoje em dia motivada mais pelo medo da violência do que pelo rigor da educação. Quase todos os estudantes ouvidos pelo GLOBO disseram que nunca brincaram na rua, como Yasmim Lourenço, de 16 anos.

¿ Gostaria muito de saber como é essa experiência. Com meus filhos, deverá ser ainda pior. Eles não vão poder sequer descer sozinhos para o playground. A casa terá que ser blindada ¿ prevê.

As previsões são geralmente pessimistas. Eles acreditam que haverá mais corrupção, violência e meninos de rua. Portanto, menos liberdade ainda.

¿ Depende do governo o país melhorar, mas a corrupção só aumenta. Só não gosto dessa generalização das pessoas, sobretudo quando falam mal da polícia. Existem pessoas boas e ruins em todos os lugares ¿ disse Douglas Nascimento, de 17 anos, morador de São Cristóvão.

A maioria dos jovens que conversaram com os repórteres, contudo, não economizou críticas aos policiais:

¿ Não dá para confiar na polícia. Um amigo meu foi assaltado em frente a um policial, que nada fez. Quando ele foi pedir ajuda, o PM disse que não iria ajudar ¿ contou Carlos Reisig, de 17 anos.

Para os alunos, tanto os da escola pública quanto os da particular, a polícia não tem equipamentos e os policiais são despreparados e mal remunerados.

¿ Há muita corrupção na polícia. Os policiais não recebem salários dignos e, quando podem, querem tirar vantagem de você, fazem de tudo para receber propina ¿ disse Carlos Soares, de 17 anos, do Dínamis.

Para muitos, solução é fugir

A solução, sobretudo para os alunos do colégio de Botafogo, é tentar deixar o Rio. Há quem pense até em ir embora do Brasil.

¿ Quero sair do Brasil com meus pais por causa da violência. Pensamos em ir morar em Portugal. Talvez eu termine meus estudos em Coimbra ¿ planeja Ana Clara Duarte, de 15 anos.

Já André Penna não gostou da experiência que teve quando passou seis meses nos EUA:

¿ As pessoas são muito frias fora do Brasil.

Ao contrário do que muitos pais podem pensar, os jovens sabem da importância de ter limites. Ainda que reclamem de excesso de controle:

¿ Na hora de controlar o horário, é chato. Meus pais também se preocupam muito com as nossas amizades. Minha mãe me liga a cada meia hora, mas o ¿não¿ de que tanto a gente reclama é o que a gente quer ouvir ¿ diz Yasmin.

A professora Sandra Ribeiro não se surpreendeu com o resultado da pesquisa do Ibope. Com 27 anos de experiência, ela procura, na escola de Botafogo, não só ensinar o conteúdo das matérias mas também orientar os alunos:

¿ Tento entrar na vida deles, dou conselhos, converso com os pais. Mas vejo com tristeza o medo que essa juventude tem do futuro. Isso atrapalha a formação deles e os torna mais imediatistas. Há 20 anos não era assim.