Título: CHEGA AO FIM LUA-DE-MEL DE BACHELET NO CHILE
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 16/09/2006, O Mundo / Ciencia e Vida, p. 12
Há seis meses no cargo, presidente enfrenta queda de popularidade e insatisfação de quase todos os setores
BUENOS AIRES. Os primeiros seis meses de governo da presidente do Chile, Michelle Bachelet, completos no último dia 11, não foram fáceis. A lua-de-mel da primeira mulher a desembarcar no Palácio de la Moneda não durou nem três meses. Os problemas começaram em junho passado, quando milhares de estudantes saíram às ruas para exigir uma educação pública de qualidade. A chamada ¿revolta dos pingüins¿ provocou uma profunda crise no governo e obrigou Bachelet a realizar uma primeira reforma de Gabinete. Desde então, a lista de conflitos só aumentou, abalando a popularidade da mulher que derrotou a direita nas urnas, mas ainda não conseguiu encontrar um rumo claro para seu governo. Segundo recente pesquisa divulgada pelo jornal ¿La Tercera¿, a imagem positiva de Bachelet, que após a posse superava 60%, recuou para 45,5%.
Esta foi uma semana especialmente difícil para ex-ministra do governo Ricardo Lagos (2000-2006). Os trabalhadores das áreas de saúde, educação e órgãos fiscais convocaram uma greve nacional para o próximo dia 26. De seis meses para cá, a líder socialista acumulou críticas de vários setores, sobretudo da ala mais conservadora da Concertação entre socialistas e social-democratas.
Analistas reclamam da falta de um programa de governo
A meta de Bachelet para os primeiros cem dias de gestão era adotar 36 medidas emergenciais, entre elas um reajuste das pensões pagas pelo Estado, melhoria no atendimento em hospitais públicos e a criação de um subsídio para financiar os cuidados com crianças de até 3 anos provenientes dos setores mais pobres da população. A grande maioria das medidas foi implementada. Porém, afirmaram analistas ao GLOBO, o que presidente chilena ainda não apresentou foi um programa de governo à altura das demandas que estão sendo feitas por setores como educação e saúde.
¿ No caso da crise com os estudantes, por exemplo, foi formada uma comissão, mas ainda não foram apresentadas propostas concretas ¿ disse Ricardo Israel, diretor do Centro Internacional para a Qualidade da Democracia. Segundo ele, ¿no governo de Bachelet falta decisão e uma forte liderança da presidente chilena¿.
¿ Pela primeira vez, a presidente do país não é a principal figura da Concertação. Isso provocou uma antecipação da próxima campanha presidencial, com pelo menos cinco nomes de potenciais candidatos, entre eles, o ex-presidente Lagos ¿ explicou Israel.
O clima de tensão alcançou seu auge segunda-feira passada, quando os atos em recordação do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 terminaram em violentos protestos. Mais de 200 manifestantes foram detidos e o governo convocou uma reunião de emergência para reforçar as medidas de segurança no país. Paralelamente, os sindicatos de professores, trabalhadores do setor de saúde e funcionários de órgãos fiscais decidiram unir-se para redobrar as pressões ao governo, que nas últimas semanas enfrentou uma sucessão de greves em todo o país. Todos os anos, a elaboração do orçamento provoca conflitos com setores que aproveitam para exigir reajustes salariais. Este ano, no entanto, a ofensiva promete ser mais agressiva, pois os trabalhadores sabem que o governo conta com um excedente de US$7 bilhões, proveniente das exportações de cobre.
¿ A presidente prometeu uma melhor qualidade de vida para todos. Se nossos problemas não forem resolvidos, os conflitos sociais serão mais graves ¿ declarou o presidente do Colégio de Professores, Jorge Pavez.
A greve nos hospitais públicos já provocou sérios problemas, embora o governo insista em afirmar que se trata de uma paralisação parcial. No caso dos professores, o sindicato estima que mais de 80 mil trabalhadores aderiram à greve, o que representa cerca de 60% do total de professores chilenos. Para o governo, a adesão foi de 26%.
Como se não bastassem as greves em setores sensíveis como saúde e educação (Bachelet foi ministra da Saúde durante o governo Lagos), a presidente chilena enfrenta, ainda, uma forte disputa com a Igreja Católica e setores conservadores da sociedade chilena, desencadeada pela decisão do governo de autorizar a entrega da pílula do dia seguinte a adolescentes acima de 14 anos. O presidente da Conferência Episcopal chilena, bispo Alejandro Goic, assegurou que a iniciativa do governo ¿representa um problema ético¿ que atenta contra a família chilena. Esta semana, o Supremo Tribunal de Justiça ordenou suspender a entrega da pílula, até que a Justiça adote uma posição definitiva sobre o assunto.
Para Bachelet, uma médica, separada e mãe de três filhos de dois casamentos diferentes, está em jogo um problema de desigualdade entre as chilenas. Segundo dados oficiais, entre os setores mais pobres, a média de casos de gravidez em adolescentes alcança 20,6%. Já em setores de alto poder aquisitivo, o percentual cai para 2,3%.