Título: POR QUE ALCKMIN TEM DIFICULDADE PARA DECOLAR?
Autor: Flávio Freire
Fonte: O Globo, 17/09/2006, O País, p. 16

Rubens Figueiredo aponta discurso fora da realidade

SÃO PAULO. A sociedade simplesmente não quer mudar. Para o cientista político da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Figueiredo, esse é o sentimento que menos favorece a candidatura do tucano Geraldo Alckmin à Presidência. Satisfeito com os programas sociais do governo Lula, diz Figueiredo, o eleitor das classes menos favorecidas, ¿fiel da balança¿ desta eleição, não teria interesse em mudar o comando do país ¿só para trocar seis por meia dúzia¿.

¿ Quem tem baixa renda e baixa escolaridade não vê necessidade alguma de mudar. Esse eleitor está satisfeito com o Bolsa Família, com o crédito consignado, com a queda no preço do arroz, vai mudar para quê? ¿ indaga Figueiredo, que acrescenta às dificuldades encontradas por Alckmin o fato de Lula ter linguagem mais próxima do eleitor.

¿ O Lula tem estilo e temática que cativam a maioria dos eleitores. Alckmin tem um discurso longe do dia-a-dia. Enquanto Lula fala de dor de dente, da mulher que não pode mais deixar o marido bater nela e de comida na mesa, o Alckmin fala de reforma da Previdência, choque de gestão e desenvolvimento econômico.

A falta de diferenciação nos programas de governo, segundo o cientista político, reforça a idéia de que o eleitorado não tem motivos para tirar Lula do Planalto. Para ele, as campanhas eleitorais também estão pasteurizadas, sem personalidade.

¿ É tudo igual: biografia, propostas e jingle nordestino.

Nem os escândalos de corrupção que atingiram o governo federal podem ser vistos como uma tábua de salvação para o candidato tucano. Segundo o cientista político, ¿Lula tem um hábeas-corpus preventivo¿: o eleitorado pouco assimilou a idéia de que o presidente pudesse estar envolvido com os esquemas de irregularidade.

¿ O povo vai para os comícios de Lula porque tem nele um político bom e honesto, que faz pelos mais pobres.

Para exemplificar a identificação dos mais pobres com a candidatura de Lula, a despeito das irregularidades levantadas ao longo dos últimos meses, o analista da USP lembra um dos principais personagens da história política recente: o caseiro Francenildo Costa.

¿ Li no jornal esses dias que o Francenildo ia votar no Lula e que ele não fazia qualquer associação do (ministro Antônio) Palocci com o presidente ¿ disse ele, sobre o caseiro que acusou Palocci de freqüentar a mansão de Brasília onde políticos e empresários supostamente negociariam facilidades.

O fraco desempenho da oposição durante a apuração no Congresso das denúncias de mensalão também facilitou o caminho para o presidente:

¿ Quando o (publicitário) Duda Mendonça disse que recebeu dinheiro de fora do país, os partidos deveriam ter ido para cima, mas isso não aconteceu. Agora não há mais o que fazer.

Figueiredo diz não imaginar qualquer estratégia a curto prazo para Alckmin reverter o quadro desfavorável nas pesquisas e, ao menos, chegar no segundo turno.

¿ Se tivesse a resposta de como isso seria possível, venderia a peso de ouro ¿ brinca o cientista político. (F.F.)