Título: POR QUE LULA MANTÉM A POPULARIDADE ALTA?
Autor: Flávio Freire
Fonte: O Globo, 17/09/2006, O País, p. 16
Roberto Romano credita sucesso à fidelidade do PT
SÃO PAULO. O favoritismo da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição é sustentado pela manutenção de uma política econômica sem sobressaltos, pela absorção por parte do PT de erros cometidos no governo e pelo fraco desempenho da oposição, principalmente em meio aos escândalos de corrupção. A análise é de um dos mais conceituados professores de ética e filosofia política, Roberto Romano, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A popularidade de Lula é reforçada ainda pelas injeções de recursos em programas sociais. Com esse cardápio, avalia Romano, o presidente reforça a popularidade nas mais diferentes classes sociais.
¿ A política econômica garantiu o olhar satisfeito das classes A e B, com a estabilidade e menor inflação. Ao mesmo tempo, recursos públicos para programas sociais conquistaram os setores C e D ¿ diz o professor, para quem o governo priorizou a ¿união de boa vontade¿ entre programas econômico e social.
Mas foi a blindagem na esfera política, onde o governo enfrentou denúncias em relação a pagamento de propina (mensalão) e de superfaturamento na compra de ambulância (sanguessuga), que Lula conseguiu sua maior vitória, segundo Romano.
Protegido pela ¿fidelidade canina¿ do PT, diz o professor, Lula conseguiu evitar que os escândalos o atingissem.
¿ O Lula contou sempre com a fidelidade canina do PT, que absorveu todos os erros e os crimes do governo e do presidente. Sem um partido como o PT, dificilmente Lula teria passado incólume. Digo até que se o (Fernando) Collor tivesse um partido como o PT, não teria sofrido o impeachment ¿ avalia.
Também contou a favor de Lula o fato de os partidos de oposição não terem estabelecido estratégia convergente para fragilizar o presidente. Legendas como o PSDB e o PFL, diante da série de denúncias contra o governo, agiram com ¿arrogância¿ quando imaginaram que a derrocada de Lula era certa.
¿ As oposições foram presunçosas quando acharam que poderiam ter qualquer tipo de estratégia sem resistência do PT, que era alvo das denúncias. Essa arrogância criou um certo dogma. Eles (a oposição) pensavam: ¿Vamos deixar o presidente sangrar em praça pública que ele chegará enfraquecido nas eleições¿. A oposição deve ter aprendido a duras penas que precisa ter raciocínio complexo, e não apenas linear.
Desde o início da campanha, Lula atravessa o processo eleitoral com larga margem em relação à preferência do eleitorado. Institutos de pesquisas indicam sua vitória no primeiro turno. Ainda seguindo o raciocínio de que partidos de oposição agiram erradamente na disputa com Lula, Romano avalia que divergências entre PSDB e PFL também deram combustível à campanha petista.
¿ O PSDB e o PFL tinham rusgas e se estranhavam desde o governo FH. Se você soma essas divergências com as divergências internas em grupos tucanos, isso os enfraquecem ¿ explica Romano.
Ele acrescenta que, na política, a regra é a do domínio do tempo:
¿ Basta ver que há um ano Lula já é candidato, viajando pelo país, governando para eleitores, enquanto a oposição só bate cabeça.