Título: EM REDUTO LULISTA NA BAHIA, APOIO ATÉ DO PP
Autor: Maiá Menezes
Fonte: O Globo, 17/09/2006, O País, p. 22
Município que deu 94% dos votos ao petista convive com desemprego; 10% dos moradores têm o Bolsa Família
SALVADOR. As ruas sem calçamento, os barracos de alvenaria e o fantasma da fome contrastam com os dados do IBGE: São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, a 66 quilômetros de Salvador, tem o maior PIB per capita do Brasil ¿ R$283 mil. A renda passa longe da casa de gente como a comerciante Helena da Conceição Santos, de 43 anos. Mãe de 16 filhos, ela cria cinco. Os outros ¿faleceram ou eu entreguei¿, conta. Helena é chefe de uma das 2.653 famílias que recebem o Bolsa Família no município, com 27.300 habitantes e renda per capita mensal de R$370. Ela contribui para outra estatística recorde de São Francisco do Conde: 94% dos moradores votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e a maior parte deve repetir o voto.
¿ Eu gasto R$600 por mês. Sem esse dinheiro, não ia dar. É por isso que vou votar no Lula de novo. Ele me deu uma ajuda grande ¿ afirma.
Helena usa os R$65 que recebe do governo federal para tentar manter os filhos na escola. Diz desconhecer as denúncias que abalaram o governo, nos últimos anos, e também não sabe quem são os concorrentes do presidente na disputa eleitoral:
¿ Para mim, só tem o Lula e pronto. Eu nem sei quem é o outro.
Lula tem 70% de votos na Bahia
São Francisco do Conde, um pequeno retrato da desigualdade do Brasil, dá uma amostra do desempenho do presidente na Bahia. Dados da última pesquisa Ibope, divulgada no dia 11, mostram que 70% dos baianos votariam em Lula, enquanto apenas 13% escolheriam o tucano Geraldo Alckmin. Em 2002, Lula teve 65,7% dos votos válidos na Bahia, contra 34,2% do tucano José Serra.
José Simão, de 71 anos, sequer sabe que Geraldo Alckmin (PSDB) é o principal adversário de Lula. Funcionário da prefeitura, ele está incluído na média de renda mensal do município. Mesmo reconhecendo que sua vida em nada melhorou nos últimos três anos e meio, vê no presidente um reflexo de si mesmo:
¿ Ele (o Lula) é um homem batalhador que nem eu. Está próximo dos humildes. Eu não tenho nada, mas sei que as coisas melhoraram. Ele não fez nada de errado ¿ diz Simão, que vive sozinho em um barraco de sapé, no centro de São Francisco do Conde.
¿ Tem gente que não entende isso. Mas a gente é o povo do Lula. Eu voto nele desde 1989 ¿ afirma Joselita Lima de Oliveira, desempregada e vizinha de Simão.
Apesar da inclusão de quase 10% dos moradores no Bolsa Família, a miséria e o desemprego grassam no município, reconhece o prefeito Antônio Pascoal (PP). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de São Francisco é de 0,714. É o 2.743º no ranking nacional.
Foi do prefeito a iniciativa, assim que tomou posse, de demitir 60% dos nove mil servidores do município ¿ quase a terça parte dos moradores se empregava na prefeitura.
¿ A maioria nem trabalhava. Se eu deixasse como estava, ia só administrar pessoal. Mas é claro que isso causou uma insatisfação geral ¿ diz.
Em São Francisco do Conde está instalada a segunda maior refinaria de petróleo do Brasil, a Landulfo Alves, que refina por dia 307 mil barris. No município, é produzida por ano uma riqueza de R$10 bilhões. O PIB de São Francisco vem do refino. Mas a intricada política da cidade impediu que esse dinheiro ajudasse a melhorar a vida dos moradores. De 2002 para cá, o município já teve três prefeitos. O atual está no cargo desde que a Justiça Eleitoral condenou o prefeito eleito, Antônio Calmon (PFL), e seu vice, Dario Rego (PSDB), por crime eleitoral.
¿ Até dinheiro pela rua os políticos jogavam por aqui ¿ diz o atual prefeito.
Sentado na frente de uma foto em que posa ao lado do presidente Lula, Antonio Pascoal dribla obstáculos partidários para fazer coro aos moradores no discurso pró-Lula. O PP é aliado nacional e regional do PSDB:
¿ Vejo no Lula um político que saiu de família pobre e que deve ter sofrido muito. Ele sabe como o pobre sofre. E os projetos sociais ajudam muito.
Pascoal conta que tirou a foto há um mês, em Salvador. Segundo ele, mais de 70 prefeitos, de vários partidos, apoiaram o presidente. Com uma pesquisa feita por um aliado nas mãos, sustenta que Lula terá ¿pelo menos¿ 90% dos votos na cidade.
¿ Há muitos tucanos e pefelistas que estão pedindo voto para o Paulo Souto e para ele ¿ afirma o prefeito.
Pascoal afirma não temer represálias do PP ¿ partido da base de apoio ao tucano Geraldo Alckmin e aliado do PFL do senador Antônio Carlos Magalhães na Bahia.
¿ Eles me abandonaram aqui quando eu mais precisei. Além disso, sempre fui aluno travesso ¿ diz o prefeito.
ACM: povo quer o mais pobre
A onda contaminou também prefeitos pefelistas. É o caso do de Vera Cruz, Nicandro Moreira. Localizada na Região Metropolitana, a cidade tem 31 mil habitantes, dos quais 3.200 recebem o Bolsa Família. O prefeito elogia a relação do governo federal com os municípios, mas alerta para o perigo de que os programas sociais tornem a população dependente do governo federal:
¿ Esses programas diminuem os problemas, mas não podem se perpetuar. Senão teremos uma população dependente do governo federal ¿ diz o prefeito, que vai homologar sua saída do PFL.
O coordenador da campanha do tucano Geraldo Alckmin, senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), afirma que o poder dos prefeitos foi diminuído pelo presidente Lula. Ele reconhece, no entanto, que os prefeitos estão cada vez mais dependentes do governo federal:
¿ Mas essa dependência não leva à submissão ¿ afirmou o senador, que esteve em Salvador na última segunda-feira para um ato com 350 prefeitos da Bahia e dos outros estados do Nordeste, a favor de Alckmin.
O senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que tenta aumentar o percentual de intenções de voto em Alckmin na Bahia, diz que o principal trunfo do presidente Lula entre os mais pobres é, na verdade, um projeto seu. Ele sustenta que Lula se beneficiou com o descrédito da classe política junto ao povo:
¿ De nada adianta popularidade sem dignidade. No fundo, o Bolsa Família foi idéia minha. O projeto é o que eu criei, em 2000, que deu origem ao Bolsa Escola. O problema é que a classe política está desmoralizada. A população pensa: igual por igual, fico com o mais pobre.