Título: BRASIL, ÍNDIA E ARGENTINA SAEM DERROTADOS NO FMI
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 17/09/2006, Economia, p. 43

Resolução que altera poder de voto no FMI não beneficiará os 3 países, segundo Mantega e ministra argentina

CINGAPURA. Brasil, Índia, Argentina e Egito saíram derrotados no debate sobre a resolução que vai alterar o poder de voto dentro do Fundo Monetário Internacional (FMI), na tentativa de aumentar a voz dos países emergentes na instituição. Apesar da oposição desses quatro países, a resolução original proposta pela cúpula da organização ¿ e rejeitada pelo grupo de países emergentes ¿ será aprovada até as 16h de amanhã, prazo final de votação dos países-membros, segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e a ministra da Economia da Argentina, Felisa Miceli.

Os quatro países dizem que concordam com a idéia geral da reforma, mas se opõem à fórmula de cálculo do peso dos países no novo desenho do FMI, que considera o PIB dos países (29% de peso na formação da cota) e a abertura ao exterior (50% de peso). Eles temem que o aumento das cotas dos países emergentes seja feito em detrimento das posições atuais de outras nações em desenvolvimento, explicou o comunicado conjunto divulgado ontem pelos ministros das Finanças de Brasil, Argentina, Egito e Índia.

¿ No caso brasileiro, as cotas cairão de 1,42 para 1,4, o que significa que países emergentes com importância crescente no processo de globalização, como o Brasil, vão perder espaço para outros emergentes, enquanto os ricos manterão sua fatia. O FMI continuará sem legitimidade e credibilidade ¿ disse Mantega.

Países podem deixar o Fundo e criar órgãos regionais

Os países emergentes querem que os ricos abram mão de seu poder no Fundo em nome dos emergentes e pobres, o que não deve ocorrer. Os ministros negam formalmente, mas nos corredores do Suntec City, em Cingapura, onde ocorre a reunião anual do FMI e do Banco Mundial (Bird), já se fala na saída de países do Fundo e na criação de organismos regionais de financiamento e ajuda mútua.

¿ Até agora, a informação é que não temos como obter mais de 15% dos votos necessários para barrar a resolução ¿ afirmou Mantega. ¿ Mas vamos esperar o prazo final.

O ministro da Fazenda disse que os quatro países vão continuar pressionando por uma fórmula diferente até o fim do prazo para implementar e regulamentar o novo mecanismo de votação, fixado entre 12 meses (2007) e 24 meses (2008).

¿ Vamos continuar trabalhando para mudar a natureza da reforma no Fundo ¿ disse. ¿ Acreditamos que a presente fórmula de cálculo é opaca e falha. O quadro que emerge hoje aponta para uma segunda etapa de consultas cuja realização não é garantida e, mesmo que ocorra, pode não avançar na legitimização das mudanças.

Margarito Teves, secretário de Finanças das Filipinas e presidente do G-24 ¿ o grupo de países pobres e em desenvolvimento que compõem o FMI e o Bird ¿ afirmou que alguns critérios de tamanho do PIB e abertura do país para o exterior propostos para fixar as novas cotas não são um reflexo da realidade da economia mundial.

¿ Somos favoráveis ao uso de outros critérios mais realistas, como o PIB em termos de paridade do poder de compra ou o nível de vulnerabilidade dos países a oscilações internacionais de preços ou fluxos de capitais ¿ disse Teves. ¿ Esses são critérios usados, inclusive, pelo FMI e pelo Bird nos programas de ajuda aos países.