Título: Cretinismo e estupidez
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 19/09/2006, O GLOBO, p. 2
A tentativa de compra de um dossiê contra os tucanos, abortada pela Polícia Federal, é cretina, inaceitável e também bizarra: a burrice e a estupidez dos supostos operadores petistas suplantaram a falta de escrúpulos ao pôr em risco a candidatura do presidente Lula, com grande potencial de vitória em primeiro turno, em favor de uma disputa já praticamente perdida para o tucano José Serra, a do governo de São Paulo.
Nos próximos cinco e últimos programas eleitorais, a oposição vai explorar o ocorrido à exaustão, e só lamenta muito não ter a foto do R$1,7 milhão que seria entregue aos mafiosos Vedoin em troca de um dossiê fajuto, com fotos já conhecidas e nenhuma prova consistente contra Serra ou Alckmin. Para engrossar o caldo, junte-se a descoberta de grampos no TSE e o desabafo em que, segundo o colunista Elio Gaspari, Lula falou a empresários de suas ganas para fechar o Congresso em alguns momentos. A mistura fornece à oposição o combustível retórico mais forte que já teve para tentar virar o jogo, garantindo pelo menos o segundo turno. É cedo ainda para saber que efeitos eleitorais o caso terá. Antes de embarcar para Nova York, Lula recebeu o tracking diário feito com base em pesquisas telefônicas: 51% a 27%. Mas o barulho em torno do assunto está apenas começando. Lula recordou muito ontem que, ao receber o dossiê Cayman contra Fernando Henrique e os tucanos, em 1998, ficou enojado, recusou-se a fazer uso dele e, através do hoje ministro Márcio Thomaz Bastos, mandou aviso ao PSDB. Recordava isso como prova do quanto é contra a baixaria, da qual já foi vítima, mas isso hoje de pouco lhe adianta. Se ele tem tefal, em seu partido hoje em dia qualquer coisa cola.
O presidente do PT, Ricardo Berzoini, deu uma entrevista de quem está zonzo com o ocorrido, confessando que nem sabia, por exemplo, que o advogado Gedimar, um dos negociadores do dossiê, prestava serviços à campanha de Lula. Mas alguém arranjou o dinheiro para a compra do dossiê, e a mando de alguém agia Geddimar. Se quis proteger outro petista, talvez mais graúdo, deu nova prova de sua estupidez ao apontar o segurança Freud Godoy, levando a bomba para dentro do Palácio do Planalto. Acareado com o segurança, que o desmentiu, o advogado se calou. Se está protegendo alguém, a Polícia Federal terá que esclarecer e identificar também a origem do dinheiro. A oposição tem razões para querer a fotografia da montanha de cédulas. Foi uma foto do gênero que liquidou com a candidatura de Roseana Sarney após o caso Lunus, em 2002.
A lembrança do caso Lunus alimentava as suspeitas de alguns petistas (apesar da cautela de Berzoini) de que a operação seja uma trampa contra Lula.
¿ A pergunta que se deve fazer é: quem mais perde com este episódio, a quem ele interessa? Acho muito estranho que um personagem desconhecido do partido, como esse advogado, tenha conseguido se imiscuir na campanha e tenha acusado alguém próximo do presidente, e não para a campanha do PT paulista, o que seria mais natural. Acho esquisitíssimo que a Polícia Federal tenha recebido uma denúncia anônima sobre a compra de dossiê que estava em curso ¿ diz o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel.
Tão grande trapalhada justifica tanto estas desconfianças como as certezas da oposição, para quem Lula está mais uma vez fingindo que de nada sabia. A oposição já sai no lucro, ainda que não consiga impugnar a candidatura de Lula ¿ o que dificilmente o TSE concederia sem provas robustas ¿ nem evite sua vitória dia 1º. Já ganhou um novo argumento para retomar a conversa do impeachment.