Título: 'A POLÍTICA AGORA É O MENSALAMA', DIZ ALCKMIN
Autor: Adriana Vasconcelos/Chico de Gois
Fonte: O Globo, 20/09/2006, O País, p. 17

Candidato diz que vive momento especial e acha que novo escândalo pode prejudicar petistas

O candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, criou ontem um novo termo para resumir o que classificou como onda de escândalos que toma conta do país: "É o mensalama", afirmou o candidato, em campanha por três municípios da Baixada Fluminense. Foi um dia em que, logo cedo, em entrevista ao "Bom dia, Brasil", da TV Globo, disse estar vivendo um momento especial e que as visitas a São João de Meriti, Nova Iguaçu e Duque de Caxias marcaram a virada rumo ao segundo turno.

- A política agora é o mensalama. Parece um novelo sem fim, um balaio de caranguejo. Você puxa um e vem uma lista. Agora tem até assessor do presidente envolvido nesse mundo triste do submundo da política. É uma triste história de fim de governo - disse o candidato, que afirmou que o R$1,7 milhão encontrado pela Polícia Federal é "dinheiro sujo":

- É tudo roubo, lavagem de dinheiro, corrupção desbragada. Veja o dólar na cueca - afirmou Alckmin, mais cedo, em entrevista à Rádio Tupi.

O candidato insinuou que vê conexão entre a suposta venda do dossiê contra o candidato do PSDB ao governo do estado de São Paulo, José Serra, e o governo federal.

- Não sou eu que estou dizendo. A pessoa presa com o dinheiro falou em um tal de Freud, que depois descobriu-se que é do gabinete da Presidência - afirmou o tucano.

Alckmin disse ainda que não considera coincidência o fato de terem surgido ao mesmo tempo a denúncia de venda do dossiê e a informação sobre a existência de grampos nos gabinetes de três ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

- O que estamos assistindo no Brasil é grave. É os fins justificam os meios. Antigamente, essa luta tinha utopia. Hoje é pelo poder - disse.

Apesar de ter sido mais cauteloso do que o presidente nacional do PFL, Jorge Bornhausen, que levantou suspeita sobre a atuação do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, Alckmin sugeriu que o Poder Judiciário e o TSE acompanhem as investigações da Polícia Federal sobre a suposta venda do dossiê:

- A PF tem ótima qualidade, mas é preciso ter cuidado porque o governo é autoritário. Então é muito importante que o Judiciário e o TSE acompanhem todo esse processo.

Inflamado pelo clima da campanha em Nova Iguaçu - com a adesão de cabos eleitorais de cerca de 40 candidatos a deputado estadual e federal na região - Alckmin fez críticas duras ao novo escândalo:

- Isso não é ação de uma pessoa. É ação do crime organizado. Quem está por trás disso? De onde veio o dinheiro? Pegaram até agora a bagrinho, é preciso ver os peixes grandes - afirmou o tucano.

Ele reagiu com ironia ao ser perguntado sobre os reflexos do caso na corrida eleitoral:

- Esperteza demais come o dono - disse.

Em entrevista ao jornal "Bom Dia Brasil", da TV Globo, o tucano se mostrou bastante otimista e disse que disputará o segundo turno.

- Nossa campanha vive seu melhor momento já há uma semana. Vamos para o segundo turno. Temos tudo para ganhar a eleição. O Brasil está perdendo tempo num momento excepcional da economia mundial e retrocedendo no aspecto ético, saúde, educação e segurança - disse o candidato.

Escândalo ganha noticiário estrangeiro

Jornais analisam impacto da crise na campanha eleitoral

Os principais jornais da Argentina noticiaram ontem o novo escândalo envolvendo o PT e o governo Lula. "Indignado, Lula deixou de acreditar em Freud", noticiou o "Página 12", em tom irônico. "O chefe de Estado aceitou a saída do assessor Freud Godoy, por suposta chantagem. A oposição pede que seja cancelada a candidatura de Lula", diz o texto. "Outro escândalo atinge o PT a poucos dias dos comícios no Brasil", informa o "Clarín", que dedicou meia página ao episódio da negociação de um dossiê contra Geraldo Alckmin e José Serra. O jornal afirma que "a oposição parece ter encontrado argumento para reverter as pesquisas que a mostram tão mal nas eleições presidenciais".

O "La Nación", que traz matéria sobre a candidata Heloísa Helena, do PSOL, afirmou: "Um novo escândalo complica o oficialismo". O "Cronista Comercial" repete: "Outro escândalo sacode a campanha eleitoral de Lula". Para o diário financeiro, a crise "se soma às críticas a Lula pela sua 'inércia' no caso da nacionalização dos hidrocarbonetos decidida pela Bolívia e a iniciativa de tirar o controle da distribuição de petróleo e derivados da Petrobras".

Outros jornais estrangeiros também relataram o novo escândalo no governo. O espanhol "ABC" afirma que o dossiê prejudicaria Serra, candidato "favorito ao governo de São Paulo", e Alckmin, principal adversário de Lula. O "Nuevo Herald", de Miami (EUA), por sua vez, analisa: "Se o PSDB conseguir fazer do caso do dossiê um fato nacional, pode tirar pontos de Lula e forçar o segundo turno".

O também americano "The Christian Science Monitor" afirma que os brasileiros estão dispostos a reeleger Lula "apesar de um escândalo de corrupção em seu partido", e cita depoimentos de eleitores em um comício no Rio: "Vera Lucia Andrade diz que votará nele porque ajudou os pobres. Gilson Amorim diz que ele tem sido um bom presidente. E Fatima Gomes votará nele porque não consegue lembrar o nome de nenhum outro candidato", diz o texto. "Tomadas em conjunto, essas razões explicam por que Lula parece destinado a ser reeleito, apesar de um governo condenado amplamente por institucionalizar a corrupção e que falhou em manter a maioria de suas promessas de mudar radicalmente o Brasil", conclui.