Título: ONG de Lorenzetti recebeu R$18,5 milhões
Autor: Adriana Vasconcelos e Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 21/09/2006, O País, p. 8

PFL quer CPI para apurar se petista suspeito de operar dossiê contra tucanos foi favorecido com verbas federais

BRASÍLIA. O PFL pretende criar uma CPI no Congresso para investigar suposto favorecimento do governo à ONG Rede Unitrabalho, ligada a Jorge Lorenzetti, petista de Santa Catarina e amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afastado da campanha por sua ligação com a tentativa de compra de um dossiê contra os tucanos. A Rede Unitrabalho, que teve Lorenzetti como coordenador de relações internacionais até março de 2005, recebeu R$18,5 milhões do governo durante a gestão Lula.

De 1996 (quando foi criada) a 2002, a rede havia recebido apenas R$840,4 mil dos cofres públicos, segundo levantamento do site Contas Abertas e pesquisa no Siafi, Sistema de Acompanhamento Financeiro da União.

Senador recolherá assinaturas para abertura de CPI

O senador Heráclito Fortes (PFL-PI), um dos coordenadores da campanha do candidato tucano à Presidência, Geraldo Alckmin, chegou ontem à tarde a Brasília com a missão de colher assinaturas para criar a CPI das ONGs. A maior parte dos recursos para a ONG, que tinha Lorenzetti como um dos fundadores, foi liberada pelo Ministério do Trabalho para financiar programas de treinamento e qualificação de trabalhadores.

- Tudo indica que o chuveiro do Palácio do Planalto vinha irrigando há muito tempo o Lorenzetti - ironizou o senador pefelista.

Com o plenário esvaziado por causa da proximidade das eleições, Heráclito só conseguiu colher ontem sete das 27 assinaturas necessárias para garantir a criação da CPI no Senado. Além do próprio Heráclito, assinaram o requerimento os senadores César Borges (PFL-BA), Romeu Tuma (PFL-SP), Almeida Lima (PMDB-SE), Sérgio Guerra (PSDB-PE), Marco Maciel (PFL-PE) e João Alberto (PMDB-MA). O senador do Piauí, no entanto, adiantou que outras 20 assinaturas deverão ser conseguidas.

Numa conversa telefônica com o presidente do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), Eurides Mescolotto, Lorenzetti disse que não tinha responsabilidade alguma na operação de compra do dossiê contra os candidatos tucanos à Presidência, Geraldo Alckmin, e ao governo de São Paulo, José Serra. A conversa ocorreu antes de ele divulgar nota, na terça-feira, em que anunciou seu afastamento do comitê.

A conversa com Mescolotto mostra que, apesar de evitar contatos com a imprensa, Lorenzetti tem procurado os amigos petistas mais próximos. Ele é diretor-administrativo licenciado do Besc e subordinado direto a Mescolotto.

Banco vai aguardar resultado de investigações

A assessoria de imprensa do banco confirmou o telefonema, mas evitou dar detalhes sobre a conversa de Lorenzetti. Até o início da noite de ontem, ele permanecia nos quadros do Besc, de onde se afastou em agosto para integrar a campanha de Lula.

O banco informou que vai aguardar o andamento das investigações para só depois tomar uma decisão sobre a eventual demissão de Lorenzetti. Segundo petistas de Santa Catarina, Lorenzetti estaria muito nervoso e apreensivo. Mas ele não revela detalhes de sua participação no episódio.

Mescolotto foi casado com a líder do PT no Senado, Ideli Salvati (PT-SC). Ontem, ela se mostrou surpresa com a participação de Lorenzetti. Ideli afirmou que não teve contato com o diretor do Besc nos últimos dias e confirmou que os dois eram aliados na política catarinense.

- Prefiro não falar nada. Estou surpresa com tudo o que aconteceu. Este é um episódio que ainda não consegui entender direito. Vou aguardar. Não sei qual era a função de Lorenzetti neste episódio - afirmou Ideli.

COLABOROU Regina Alvarez

Os operadores

Até a terça-feira, o petista Jorge Lorenzetti trabalhava no comitê para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sua função era chefiar um núcleo de informação e inteligência, para a análise de risco e mídia. Entre seus subordinados estava o advogado e ex-agente da Polícia Federal Gedimar Passos, preso com o também advogado Valdebran Padilha portando R$1,7 milhão, na tentativa de negociar um dossiê contra candidatos tucanos. Foi Lorenzetti que apresentou Gedimar a Freud Godoy, o ex-assessor de Lula.

O dossiê foi uma operação coordenada por Lorenzetti e pelo ex-secretário de Relações do Trabalho Osvaldo Bargas. Ex-sindicalista, casado com a secretária particular do presidente, Mônica Zerbinato, Bargas deixou o governo há dois meses para participar da redação do programa de governo de Lula.

Lorenzetti e Bargas ofereceram há duas semanas o material contra o tucano José Serra à revista "Época", que recusou. No último fim de semana, o mesmo dossiê teria sido publicado pela revista "IstoÉ". A "Época", Bargas disse que o presidente do PT, Ricardo Berzoini, fora avisado do encontro.

Lorenzetti foi dirigente da CUT no mesmo período em que o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares era um dos diretores da entidade. Professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Lorenzetti concorreu à prefeitura de Florianópolis. Uma de suas atividades mais conhecidas era a de preparar churrascos para Lula. Bargas é um petista histórico e amigo de Lula desde os tempos de sindicalista. Na quarta-feira, Lorenzetti deixou o cargo no comitê eleitoral com uma carta em que admitiu ter extrapolado os limites de suas atribuições.