Título: Valdebran é suspeito de irregularidades na Funasa
Autor: Bernardo de la Peña
Fonte: O Globo, 21/09/2006, O País, p. 11

Empresa de advogado preso no 'dossiêgate' teria desviado verbas públicas para aliados de seu grupo político

BRASÍLIA. O empresário Valdebran Padilha, preso pela Polícia Federal por ser um dos elos entre os Vedoin e os petistas interessados em comprar o dossiê contra os tucanos paulistas, também é investigado pela PF em Mato Grosso por causa de denúncias de irregularidades na Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Ele é acusado pelo ex-coordenador estadual do órgão José Ferreira Lemos Neto, também petista, de fazer parte do grupo que nomeou o atual coordenador do órgão, Evandro Vitório - junto com o ex-senador Carlos Bezerra e o petista Alexandre Cesar, de quem Valdebran foi arrecadador na campanha eleitoral de 2004.

CPI dos Sanguessugas pode convocar Valdebran

As denúncias de Lemos, na opinião do sub-relator da CPI dos Sanguessugas, Fernando Gabeira (PV-RJ), aumentam a necessidade de Valdebran ser convocado para depor na comissão. Segundo Lemos, os três receberam carta-branca do então ministro da Saúde Saraiva Felipe para retirá-lo do cargo e indicar um novo coordenador.

- Acho essa história um escândalo. Mas a Funasa de Mato Grosso está envolvida em escândalos desde quando foram denunciadas as mortes de crianças Guarani Cauás e Xavantes. Valdebran tem de ser ouvido de qualquer jeito - diz Gabeira.

Vitório era, até assumir a nova função na Funasa, funcionário da Saneng, empresa que pertence a Valdebran e a seu irmão, Valdemir. A empresa já tinha problemas com a Funasa por ter recebido R$700 mil do órgão, para fazer obras de perfuração de poços artesianos em áreas indígenas na região do Alto Xingu. Porém, segundo os relatórios técnicos citados por Lemos na PF, a obra não teria sido concluída. O novo coordenador, segundo Lemos, até assumir era o responsável pelas explicações da empresa no processo.

Em depoimento no dia 8 de agosto, na delegacia da PF de Rondonópolis, Lemos acusa Valdebran de ter visitado prefeituras no estado, oferecendo obras de infra-estrutura. Mas as mesmas prefeituras, diz no depoimento, depois recebiam a ligação de um suposto assessor de Carlos Bezerra que informava da condição de repassar 30% dos custos da obra para o ex-senador. Segundo Lemos, a empresa de Valdebran costuma fazer obras com recursos vindos de emendas ao orçamento feitas pelo ex-senador e pela sua mulher, a deputada Tetê Bezerra.

Lemos levantou suspeitas ainda sobre as licitações ganhas pela empresa Intertours Viagens e Turismo Ltda no órgão. Segundo ele, havia veículos alugados pela Funasa no valor de R$27 mil. Ele não específica o período de locação. Lemos disse, entretanto, ter tentado extinguir esses contratos, mas sem sucesso pelo pouco tempo que ficou no cargo. Foram cem dias entre maio e agosto de 2005. Segundo ele, Valdebran tinha forte interesse na manutenção do contrato de locação com a Intertours. O problema dos contratos, disse, estava na forma de cobrança, que se dava pela quilometragem e não por um valor fixo.

Na PF, Lemos disse ainda que Vitório redistribuiu verbas que seriam destinadas a cuidados com a saúde indígena. Ele explicou que os recursos que iriam para os municípios de Rondonópolis e Barão do Melgaço foram remanejados para o município de Santo Antônio do Leveger, com população de cerca de cem índios, segundo ele. "O que chama a atenção é que tal município é atualmente administrado por pessoas muito ligadas ao senhor Valdebran", diz Lemos.