Título: VIOLÊNCIA E MORTE NAS FAZENDAS
Autor: Martha Beck
Fonte: O Globo, 21/09/2006, Economia, p. 30
OIT revela histórias de trabalhadores vítimas de emboscadas
BRASÍLIA. Além de serem obrigados a fazer suas tarefas em condições degradantes, as vítimas de trabalho escravo enfrentam violência e até tentativas de assassinato por parte dos fazendeiros. O estudo "Trabalho escravo no Brasil do século XXI", divulgado ontem pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), narra, entre outros casos, a história de José Pereira, que lutou durante 14 anos na Justiça para receber uma indenização de R$52 mil por ter sido submetido ao trabalho escravo numa fazenda no Sul do Pará.
Ele e outros trabalhadores dormiam num barracão de lona e eram vigiados por homens armados o tempo todo. A comida era arroz e feijão. Só havia carne quando algum boi morria atropelado na estrada.
Para escapar da escravidão, Pereira e um amigo decidiram fugir, mas sofreram uma emboscada feita por funcionários da propriedade. O amigo morreu, mas ele conseguiu resistir mesmo tendo tomado um tiro na cabeça. Os dois foram enrolados numa lona e atirados numa estrada.
Pereira, que tinha apenas 17 anos na época, conseguiu ajuda numa fazenda próxima e se recuperou apesar de ter perdido a visão num olho. Com a ajuda da Comissão Pastoral da Terra, ele entrou na Justiça e conseguiu receber a indenização de R$52 mil.
O estudo também conta o caso de trabalhadores que foram encontrados em fazendas nas quais dormiam em currais. Outros não tinham água potável e eram obrigados a tomar banho e lavar os instrumentos de trabalho na mesma água que bebiam. Um trabalhador que reclamou da água na frente dos demais foi agredido com uma faca e acabou perdendo o movimento da mão.
Ainda segundo o documento, quando os escravos se ferem durante o trabalho, recebem uma pequena quantia ou só medicamentos e são mandados embora porque os fazendeiros não querem ter que cuidar de doentes. Na tabela aviltante dos empregadores criminosos, um olho perdido rende ao trabalhador R$60, enquanto uma mão chega a cem reais. (Martha Beck)