Título: Maioria das vítimas é analfabeta ou tem, no máximo, 2 anos de estudo
Autor: Martha Beck
Fonte: O Globo, 21/09/2006, Economia, p. 30
Sul-Sudeste do Pará é a região onde existe mais trabalho escravo no país
BRASÍLIA. O documento "Trabalho escravo no Brasil do século XXI", divulgado ontem pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), traça um perfil das vítimas desse tipo de crime no país. São, na maioria, homens com idade entre 18 e 40 anos que são analfabetos ou têm até dois anos de estudo. De acordo com o estudo, essas pessoas partem de sua terra natal para buscar trabalho, principalmente na região de fronteira agrícola amazônica.
Mas como não têm qualquer qualificação, esses trabalhadores representam mão-de-obra barata e são aliciados para fazer desmatamento de áreas para a criação de gado ou a plantação de soja, por exemplo. Eles são abordados por "gatos" (pessoas que contratam a serviço dos fazendeiros), com promessas de boas condições de trabalho. Mas, ao chegar ao local, descobrem que já têm uma dívida com o fazendeiro pelo transporte, instrumentos de trabalho, alojamento e comida. Essa dívida sobe todos os dias e os trabalhadores não conseguem pagá-la.
Os trabalhadores são submetidos a péssimas condições de trabalho, costumam dormir em barracas improvisadas ou dividem o espaço com o gado em currais. A alimentação é escassa, normalmente apenas arroz e feijão. Quem tenta deixar a fazenda acaba sofrendo ameaças e violência física.
Pecuária e áreas de algodão, soja e cana são problema
De acordo com o estudo, que foi divulgado pela diretora da OIT no Brasil, Laís Abramo, e pelo chefe do Programa de Combate ao Trabalho Escravo da Organização, Roger Plant, a área em que mais se pratica trabalho escravo no Brasil é o Sul-Sudeste do Pará. Mas também são comuns casos no Mato Grosso e no Maranhão. Entre 1995 e 2005, foram libertados 6 mil escravos no Pará, o que corresponde a quase 40% do total do país.
Já os principais estados fornecedores de mão-de-obra escrava no país são Maranhão, Piauí, Bahia e Goiás.
As atividades que mais usam esse tipo de mão-de-obra são a pecuária (80%), seguida pela cultura do algodão e soja (10%) e da cana-de-açúcar (3%). Embora os trabalhadores sejam mantidos nas piores condições possíveis, as propriedades costumam ser latifúndios que utilizam equipamentos de alta tecnologia e produzem mercadorias tanto para o mercado interno quanto para exportações.
O documento também mostra que já há uma ligação entre as regiões em que mais há trabalho escravo e violência no campo. As duas regiões com maior incidência dessa prática (Sul-Sudeste do Pará e fronteira agrícola do Pará) são as áreas com maior quantidade de assassinatos em conflitos agrários: 44,12%. Essas são também as áreas que mais desmatam no país: 38,51% do total.