Título: O prejuízo eleitoral é pequeno, mas o prejuízo político é muito grande¿
Autor: Chico de Gois
Fonte: O Globo, 28/09/2006, O País, p. 9
O secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, considera que o prejuízo político para o partido é muito grande com o episódio da compra do dossiê, mas não acredita em prejuízo eleitoral. Ele propõe que o partido crie uma corregedoria interna e afaste os envolvidos.
Que prejuízo causa ao partido o episódio da compra do dossiê?
VALTER POMAR: Os envolvidos negam que tenham comprado o dossiê. Acho que o prejuízo eleitoral, se houver, é pequeno. Mas o prejuízo político é muito grande, tendo provocado inclusive a substituição do coordenador-geral da campanha. O militante petista, que estava numa ofensiva total, agora gasta parte de seu tempo tendo que dar e obter explicações.
Depois do escândalo do ano passado, com o mensalão e os dólares na cueca, o PT foi surpreendido agora?
POMAR: O episódio revela que existe um grupo, dentro do partido, que não aprendeu nada com os acontecimentos de 2005. Nossa sorte é que a direita também não aprendeu: reagiu pedindo a cassação do registro da candidatura Lula.
O que o partido pretende fazer para evitar futuros desgastes como esses?
POMAR: Precisamos fazer o que foi aprovado no 13º Encontro do PT, de maio: concluir o debate sobre as causas de 2005. Afastar os envolvidos. Criar uma corregedoria interna. E, principalmente, afirmar uma concepção democrática e socialista de partido, pois no fundo do problema está uma concepção política equivocada.
Como o senhor avalia o suposto envolvimento do presidente do PT no caso?
POMAR: Ricardo Berzoini repudiou o episódio e disse que não tinha conhecimento das negociações. Passada a eleição, a direção nacional do PT deve discutir o caso e ver se cabe tomar alguma medida.
O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, voltou a defender a refundação do partido. Isso é possível?
POMAR: Sou contra a tese da refundação. Por trás dela, está o objetivo de transformar o PT num partido social-democrata tradicional. Meu objetivo é reafirmar o PT como partido socialista e militante.
Raul Pont disse que os fatos tinham a ver com "a mesma turma" de São Paulo que controla o partido. Concorda?
POMAR: Existe no PT um grupo de militantes que não aprendeu nada com os acontecimentos de 2005. Mas este grupo não é paulista, tem ramificações em todo o país. Acho que o problema não é geográfico, é de concepção política.
Como vê o distanciamento de Lula do PT? Acha que ele não sabia do envolvimento de amigos na compra do dossiê?
POMAR: Não acho que haja distanciamento. E está mais do que evidente que ele não sabia desta ¿operação tabajara¿.
Como viu o fato de Lula beijar a mão de Jader Barbalho, defender Newton Cardoso e Ney Suassuna, por exemplo?
POMAR: Desconheço qualquer beija-mão. Indo ao mérito: o PT precisa crescer para não precisar de aliados deste naipe.
O PT perdeu o monopólio da ética?
POMAR: O PT nunca teve esse monopólio. Mas continua sendo muito mais ético do que os partidos da direita.