Título: ESCÂNDALO PÕE EM XEQUE GRUPO QUE COMANDA PT
Autor: Chico de Gois
Fonte: O Globo, 28/09/2006, O País, p. 9
Petistas defendem um ajuste de contas após a eleição, com antecipação de congresso e troca da direção do partido
BRASÍLIA. A atrapalhada operação de petistas na compra de um dossiê contra o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, não surtiu o efeito desejado de implodir o ninho dos tucanos, mas acionou uma bomba-relógio no PT que deverá ser detonada logo após as eleições. A julgar pela irritação e pelas declarações de dirigentes petistas, poderá abalar as estruturas do partido. O alvo principal dos questionamentos é o ex-Campo Majoritário, tendência do presidente do partido, Ricardo Berzoini (SP), e sua hegemonia no controle do PT.
O afastamento de Berzoini da coordenação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a senha de que o estopim está aceso. Dirigentes do partido defendem um ¿ajuste de contas¿, nas palavras do secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar (Articulação de Esquerda). Ou a antecipação do congresso do partido, inicialmente agendado para o segundo semestre do ano que vem, como propõe o terceiro vice-presidente, Jilmar Tatto (PT de Luta e de Massas). Ou, ainda, a ¿mudança na hegemonia¿ do grupo que comanda a legenda, como afirmou a deputada federal Maria do Rosário (Movimento PT).
Toda essa lavagem de roupa, porém, só acontecerá depois das eleições pois, apesar de divergirem internamente sobre os rumos do partido, os petistas ainda estão unidos em um objetivo: reeleger Lula.
Raul Pont já criticou comando
O primeiro a apontar o dedo para a ferida foi o secretário-geral do partido, Raul Pont, da tendência esquerdista Democracia Socialista (DS). Na semana passada, Pont afirmou que as trapalhadas da compra de dossiê foram protagonizadas ¿pelo grupo de sempre¿, de São Paulo, que comanda o partido. Outros petistas lhe dão razão.
A deputada Maria do Rosário (RS) disse que os interesses regionais não podem estar acima dos interesses do partido.
¿ É sempre o mesmo grupo ¿ acusou. ¿ Passadas as eleições, vamos ter de retomar o conselho de ética e ver se essas pessoas envolvidas na compra do dossiê não estão infiltradas entre nós, porque contribuíram com a oposição ¿ declarou ela, em referência a Osvaldo Bargas, amigo de Lula, Jorge Lorenzetti, churrasqueiro do presidente, e Valdebran Padilha, que arrecadou recursos para o PT do Mato Grosso.
Maria do Rosário defendeu a antecipação do congresso nacional do PT, inicialmente marcado para o segundo semestre de 2007, quando o partido se propôs a discutir os problemas ocorridos em 2005 e estes agora.
Jilmar Tatto (SP) também defende a antecipação do congresso. Para ele, como meio de sanear o partido, a executiva poderia se dissolver e marcar uma nova eleição para a escolha dos dirigentes.
¿ O PT tem de se repactuar internamente. O que aconteceu não é uma questão de controle interno, mas de comportamento de dirigentes.
Petista defende Berzoini
Nas palavras de Maria do Rosário, há um ¿poder paralelo¿ à direção do partido. O secretário Valter Pomar defende o ajuste de contas.
¿ É evidente que o partido precisa concluir um ajuste de contas com os métodos, mas principalmente com as concepções políticas deste grupo ¿ disse Pomar, em referência ao ex-Campo Majoritário.
Integrante da tendência, João Felício, dirigente da CUT, não vê motivos para tanta discussão. Pelo menos não agora. Ele defende a antecipação do congresso, mas só se for por outras razões que não sejam relacionadas à compra do dossiê.
¿ Os companheiros cometeram uma gafe que tem de ser analisada pelo partido. Quem se relaciona com bandidos acaba se chamuscando ¿ disse Felício.
Ele classifica como prematura a discussão sobre a possibilidade de mudança no comando do partido.
¿ O Berzoini está bem na presidência do partido e não há nada contra ele, só fofoca e opinião de um ou outro.
Um dos coordenadores da campanha de Lula na região Norte, o governador do Acre, Jorge Viana, acha que dá para salvar a campanha de Lula do que ele chama de absurdo praticado por petistas, mas diz que depois de outubro providências serão tomadas.
¿ Tenho fé que a gente atravessa essa. Depois das eleições vamos ver que providências tomar em relação ao partido ¿ disse.