Título: UM PAÍS NA CORDA-BAMBA
Autor: Renata Malkes
Fonte: O Globo, 24/09/2006, O Mundo, p. 47

Em campanha para entrar na UE, Turquia tenta provar que Islã é compatível com democracia

Equilibrando-se entre a crescente ameaça do terrorismo e uma série de reformas econômicas para agilizar sua entrada na União Européia (UE), a Turquia luta para provar que o Islã é compatível com um regime democrático. Nas ruas de Istambul, a segunda maior cidade do país, mesquitas, bares, restaurantes e mercados lotados de turistas em busca de diversão e cultura a preços acessíveis colocam o país na trilha da modernização, sem deixar de lado as raízes muçulmanas. Estrategicamente dividida pelo Estreito de Bósforo em duas partes ¿ uma européia e outra asiática ¿ Istambul pode ser considerada o maior símbolo do desafio turco de manter juntos tradições seculares, cultura religiosa e crescimento econômico compatível ao dos vizinhos europeus.

Embora cidades turcas tenham sido alvo de atentados nos últimos anos, a população se nega a entrar na rota do terror mundial. O último ataque, há duas semanas, matou 11 e deixou dezenas de feridos em Diyarbakir, reduto curdo no sudoeste do país.

Curdos e Chipre, pedras no caminho

O policiamento nas ruas é intensivo, mas não se vê seguranças particulares nas entradas de hotéis e grandes redes comerciais. Para a professora Meltem Muftuler Bac, do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Sabanci, em Istambul, o terror que ataca cidades como Antalya, Marmaris e Istambul é um fenômeno que tenta ofuscar o sucesso do país em administrar uma democracia livre e islâmica. Segundo ela, o secularismo é parte fundamental da cultura turca.

¿ Após o 11 de Setembro e a chamada guerra ao terror, grupos políticos tentam abalar a estabilidade e o status quo turco numa tentativa de colocar-nos o rótulo do fundamentalismo islâmico. Nem todo o terrorismo no Oriente Médio está relacionado ao terror islâmico, sobretudo na Turquia. Os terroristas turcos são marxistas guerrilheiros e obsoletos, defensores das idéias de Lenin. Até hoje não houve ligação entre o radicalismo islâmico e ataques perpetrados no país ¿ diz.

Já a estudante de Literatura Esim Tuna, de 25 anos, conta com orgulho que o país vive uma fase de transição. Ela mora na parte asiática de Istambul e todas as manhãs cruza o Estreito de Bósforo para estudar e trabalhar na parte européia. Sonhando com melhores salários, ela defende a entrada do país na UE, mas acredita que o maior desafio dos turcos será superar o preconceito. Ao contrário da maioria secular, Esim é uma muçulmana tradicional. Coberta com um véu, condena o fundamentalismo religioso e afirma que os ataques terroristas refletem apenas um problema político interno, a situação dos curdos, grupo étnico que luta por um Estado independente e hoje encontra-se espalhado por Turquia, Iraque, Irã, Síria e Armênia.

¿ A maior dificuldade para juntar-nos oficialmente à Europa é a discriminação, pois eles nos vêem como árabes. Não compreendem que os turcos são muçulmanos, não árabes. É triste sentir que estamos mendigando para entrar na UE, pois vejo o país mudando muito, sobretudo após a reforma econômica que ano passado reduziu a inflação e cortou milhares de zeros da lira turca. Se o governo der um pouco mais de liberdade à minoria curda, creio que a tensão será menor. Não tenho medo do terror e não existe paranóia devido aos atentados, mas hoje não há mais latas de lixo nas ruas por medo de bombas ¿ diz.

O governo do conservador primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, do Partido da Justiça e Desenvolvimento, porém, não dá sinais de aliviar a situação da minoria curda. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) é acusado de estar por trás da maioria dos ataques a alvos turcos. Desde 1984, sob a chefia do líder Abdullah Ocalan, já morto, o PKK se opõe ferozmente ao governo.

Apesar da tolerância religiosa e do respeito às minorias religiosas, a lei turca não reconhece minorias étnicas e até mesmo o idioma curdo foi banido, despertando a fúria de guerrilheiros. Nem mesmo um acordo de cessar-fogo assinado em 2000 interrompeu a batalha de cerca de 26 milhões de separatistas.

Além do problema interno, a Turquia tem ainda um outro adversário a ser vencido: a pressão do vizinho Chipre contra sua adesão ao poderoso bloco econômico europeu. Os dois países têm pela frente complicadas negociações pela soberania da parte norte de Chipre, anexada pela Turquia em 1974. Mesmo com a economia caminhando para a estabilidade, o registro de mais de 7 milhões de turistas por ano e um crescimento econômico que atingiu a casa dos 7,4% em 2005, os turcos parecem ter ainda um longo caminho a trilhar até a porta oficial de entrada ao velho continente.