Título: Brasil menos competitivo
Autor: Ronaldo D'Ercole
Fonte: O Globo, 27/09/2006, Economia, p. 25
Aumento do gasto público e corrupção fazem país cair de 57º para 66º lugar
Oaumento dos gastos públicos e da corrupção no Brasil fizeram o país despencar no ranking dos países mais competitivos do planeta. O Relatório de Competitividade Global 2006-2007, divulgado ontem pelo Fórum Econômico Mundial (FEM), mostra que o Brasil caiu da 57ª posição, em 2005, para a 66ª entre os 125 países analisados.
Com a perda de nove posições, o país manteve-se na lanterna entre as quatro economias emergentes com maior potencial de crescimento, conhecidas como Brics, grupo que inclui a Índia (que melhorou duas posições para 43ª), a China (que saiu da 48ª para a 54ª), e a Rússia (que também perdeu nove posições, mas ficou na 62ª). O Brasil ficou atrás também da África do Sul - que caiu cinco posições, mas está em 45º - e foi ultrapassado pela Colômbia.
Piorou a percepção das instituições
Este é o quinto ano consecutivo que o Brasil se afasta do topo da lista dos países mais capacitados para crescer e gerar prosperidade às suas populações, que agora é encabeçada pela Suíça, seguida de Finlândia, Suécia, Dinamarca, Cingapura, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Holanda e Reino Unido.
O economista-chefe do FEM, Augusto Lopez-Claros, atribuiu a perda de competitividade da economia brasileira à deterioração dos indicadores em duas áreas: na macroeconômica (gestão de contas públicas, inflação e os spreads bancários), cujo índice obtido fez o país sair da 91ª posição para a 114ª; e na institucional (transparência, eficiência e corrupção no setor público, proteção a direitos de propriedade, confiança e eficácia das autoridades, além da ética das empresas). Na avaliação de suas instituições, o Brasil foi do 79º posto para o 91º .
Dizendo desconhecer os dados da pesquisa, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que há uma discrepância entre a avaliação do Fórum Econômico e a que o mercado tem do Brasil. Mantega disse que tem colhido entre os investidores estrangeiros avaliações de que o país tem melhorado muito:
- Nunca fomos tão bem avaliados pelas agências de risco. Portanto, não sei de onde tiraram esses dados.
O economista-chefe do FEM tem uma visão diferente.
- Apesar da nítida melhora das finanças públicas nos últimos anos, o Brasil ainda fica atrás do desempenho fiscal de muitos outros países, que passaram a gerenciar seus orçamentos com maior eficiência - justificou Lopez-Claros.
O economista destacou que, apesar do aumento de arrecadação, o crescimento dos gastos públicos fez o déficit público no ano passado subir para 3,5% do PIB.
- Com o tempo, a menos que a economia cresça aceleradamente, o que não está acontecendo com o Brasil, o endividamento tende a aumentar - disse.
Outro fator negativo foram os elevados spreads (diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o que cobram nos empréstimos), que oneram o crédito ao setor produtivo. O relatório do Fórum Econômico cita o Fundo Monetário Internacional (FMI), que atribui o fato de os spreads no Brasil não caírem na mesma proporção dos cortes dos juros básicos (Selic) à falta de concorrência e à ineficiência dos bancos.
- Spreads muito altos encarecem os investimentos e impedem que o país cresça a taxas maiores - observou Lopez-Claros.
Diferentemente dos indicadores macroeconômicos, que são avaliados a partir de dados colhidos junto a organismos como FMI e Banco Mundial (Bird), a análise das instituições é feita a partir de entrevistas com executivos de grandes empresas que atuam nos países. Ao todo, 11 mil executivos foram entrevistados. E a percepção dos 194 ouvidos no Brasil sobre as condições institucionais fez o país ser rebaixado da 79ª posição para a 91ª. Um desempenho "muito ruim", segundo Lopez-Claros.
Alinhado às piores economias do mundo, o Brasil ficou em 124º lugar em termos de peso da regulamentação governamental, em 119º lugar por desperdício de gastos públicos, mesma posição para confiança nos políticos, e em 92º quanto à independência do Judiciário.
Empresas no país se sofisticaram
O país tem desvantagens competitivas ainda em relação à infra-estrutura e a educação superior e treinamento. Além, é claro, do excesso de burocracia, informalidade e carga tributária, a pior entre os 125 países analisados. Em compensação, o Brasil está no time dos países mais competitivos em fatores considerados mais avançados para as economias emergentes, como eficiência de mercado, sofisticação empresarial, inovação e disponibilidade tecnológica.
- Diferentemente da maioria dos países do seu grupo, o Brasil avançou mais em fatores mais sofisticados e não resolveu problemas básicos - disse o professor Carlos Arruda, da Fundação Dom Cabral, responsável por compilar e analisar os dados sobre o Brasil para o relatório.
COLABOROU Lino Rodrigues
EUA DESPENCAM E SUÍÇA ASSUME 1º LUGAR, na página 26