Título: Ministro desembarca no Amapá e ajuda Sarney
Autor: Evandro Éboli
Fonte: O Globo, 29/09/2006, O País, p. 15
Senador, cuja adversária cresceu nas pesquisas, faz discurso messiânico e chama eleitores de 'manos e manas'
MACAPÁ (AP). A três dias da eleição, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, indicado para o cargo por seu padrinho político José Sarney (PMDB-AP), desembarcou ontem no estado para anunciar, ao lado de Sarney, uma série de obras do governo federal para o Amapá, entre eles o Luz Para Todos. O anúncio de Rondeau foi feito num evento privado, no lançamento da pedra fundamental de um complexo de minério do empresário Eike Batista, mas que tinha a presença de políticos aliados, incluindo o senador Sarney, homenageado especial da cerimônia.
Senador diz ter a missão de redemocratizar o país
Sarney disputa novo mandato de senador pelo Amapá e, pela primeira vez, encontra dificuldades para se reeleger, diante do crescimento da candidata do PSB, Cristina Almeida, uma novata na política. Sarney apelou até para um discurso messiânico. A presença de Silas Rondeau foi anunciada na véspera pelo próprio senador num comício de campanha em Santana, a 20 quilômetros de Macapá.
No longo discurso, Sarney se dirigia ao povo como "manos e manas", disse ser um homem simples, que morou em casa de terra de chão batido e que Deus deu a ele a missão de "redemocratizar o país" por ter presidido o Brasil no período de transição da ditadura para a democracia. Sarney referiu-se várias vezes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e disse ter seu apoio integral.
- Deus não me trouxe de tão longe senão para cumprir uma missão especial. A de redemocratizar o país. O povo está aí hoje escolhendo seus governantes - disse Sarney.
Ao rebater as críticas de adversários que o acusam de não se interessar pelo Amapá, o ex-presidente disse que tem grandes serviços prestados ao estado e que destina recursos ao Amapá no Orçamento da União todos os anos.
- Tenho autoridade para pedir que me apóiem. Fiz, faço e vou fazer - disse Sarney.
Silas Rondeau rasgou elogios ao senador no evento e disse que Sarney é um político "muito identificado com o Amapá".
- Nos últimos dez anos, foram investidos aqui, senador Sarney, com a sua ajuda, diga-se de passagem mas com justiça, cerca de R$440 milhões só na parte de infra-estrutura e energia - discursou Rondeau.
No final, em entrevista, o ministro negou que sua visita ao estado para anunciar obras do governo tinha caráter político e eleitoral. A última vez que Rondeau esteve no Amapá foi há seis meses.
- É uma visita técnica. Sempre venho ao Amapá. Não vai influenciar em nada no resultado da eleição. Não estou fazendo manifestação pública, não foi convidado político nem jornalista. Não vou deixar de trabalhar porque é período de eleição. Vou cumprir o meu dever.
Rondeau disse que seguiria para Tartarugalzinho para visitar a região onde iria iniciar o Luz Para Todos. Ele disse que, até 2008, serão investidos R$70 milhões no programa, que irá beneficiar cerca de 50 mil pessoas no estado. As outras obras anunciadas foram duas linhas de transmissão de energia da subestação de Santa Rita e um detalhado mapeamento mineral do estado.
Por intermédio de sua assessoria de imprensa, Sarney negou exploração politica na inauguração da pedra fundamental de um projeto privado.
- O ministro Silas Rondeau não vai deixar de fazer algo importante porque alguém acha que há interesse político. O presidente José Sarney concorda -- afirmou o jornalista Fernando César Mesquita, assessor do senador Sarney.
No discurso de anteontem, o senador atacou sua principal adversária na disputa, a funcionária pública Cristina Almeida (PSB), que ameaça lhe tirar a vaga de senador. Ele a desafiou a mostrar o que já fez pelo Amapá. Sarney afirmou que seus adversários "convocaram" a imprensa nacional para ver sua derrota no estado:
- Mas o que eles vão ver é minha vitória.
Cristina Almeida disse que sua vitória é importante para dar equilíbrio na distribuição dos senadores em Brasília. Ela afirma que Sarney é o quarto senador do Maranhão e que, por isso, Amapá conta com apenas dois senadores. Cristina foi superintendente do Incra no estado durante pouco mais de dois anos, no governo Lula, e foi exonerada, segundo ela, a pedido de Sarney. Mas ela não guarda mágoa de Lula e o apóia, inclusive fazendo campanha para que o presidente seja reeleito.
- Sei que o coração de Lula torce para que eu saia vitoriosa. É para tirar essa pedra chamada Sarney do meio do caminho dele - afirmou Cristina ontem.
* Enviado especial