Título: BC REDUZ PROJEÇÃO PARA CRESCIMENTO
Autor: Luciana Rodrigues
Fonte: O Globo, 29/09/2006, Economia, p. 35
Relatório espera aumento de 3,5% do PIB, abaixo do que estima governo
BRASÍLIA. O tropeço da economia brasileira no segundo trimestre, quando cresceu apenas 0,5%, levou o Banco Central (BC) a revisar de 4% para 3,5% a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano - apenas três dias depois de o governo fixar oficialmente em 4% sua previsão. O Ministério da Fazenda já não descarta novas alterações.
O diretor de Política Econômica do BC, Afonso Bevilaqua, reconheceu, durante a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação, que a expansão "poderia ser melhor". Mas continuou defendendo que o ritmo de queda dos juros básicos (Taxa Selic) - tímido para muitos no mercado e no setor produtivo - está apropriado, mesmo com a inflação despencando.
O próprio diretor do BC afirmou ontem haver 20% de chances de o IPCA de 2006 fechar abaixo do piso mínimo de 2,5% estabelecido a partir da meta de 4,5% perseguida para o ano, que tem margem de dois pontos percentuais. A previsão mais segura do BC é que a taxa oficial de inflação ficará em 3,4% este ano.
Questionado se isso não seria um motivo para acelerar a redução da Selic, hoje em 14,25% ao ano, Bevilaqua defendeu que prefere errar para menos do que para mais, porque isso dificultaria ainda mais o crescimento e afetaria a renda da população.
- Estamos entrando numa nova fase da economia, que é a tentativa de explorar o potencial de crescimento com estabilidade de preços - justificou o diretor.
Para especialistas, mesmo sendo mais conservadora do que a previsão oficial do governo, a projeção do BC sobre o PIB é difícil de ser concretizada. O economista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, calcula que, para chegar aos 3,5% como prevê o BC, o crescimento médio do terceiro e do quarto trimestres terá de ser de 1,6%.
A revisão foi resultado da redução das estimativas de expansão da indústria (de 5,4% para 4%) e da agropecuária (de 3,6% para 3%). O desempenho pífio do segundo trimestre, explicou Bevilaqua, também foi afetado por fatores pontuais, como Copa do Mundo e greve da Receita Federal.
- O crescimento veio do consumo das famílias - afirmou o diretor, lembrando que estão em alta a renda, o emprego e o crédito, fatores que ajudarão na recuperação.
Devido aos passos lentos da economia, o BC indicou mais uma vez que deve continuar cortando os juros nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), em outubro e novembro, na avaliação de Lintz. Na média, o mercado espera que a Selic encerre o ano a 13,50%.
Mantega: espaço aberto para mais queda dos juros
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, também entendeu que está aberto o espaço para novas reduções dos juros. Mesmo assim, não descartou uma revisão da previsão oficial do governo para o PIB, de 4%. No entanto, a equipe da Fazenda ainda vai esperar os resultados da economia no terceiro trimestre:
- Recentemente, os ministérios da Fazenda e do Planejamento emitiram relatório em que reduziram a previsão de crescimento de 4,5% para 4%. Mas isso não quer dizer que não venhamos a rever isso futuramente.Vamos observar, deixar consolidar o terceiro trimestre, para ter uma previsão mais sólida.
Mantega destacou que os investimentos estão crescendo e que, por isso, ele espera que a formação bruta de capital fixo (investimento em máquinas e equipamentos mais a construção civil) cresça este ano 7% do PIB. Isso, de acordo com o ministro, está ajudando o terceiro trimestre do ano a ter um resultado melhor que o segundo.
Sobre inflação, o BC diminuiu a projeção para este ano, de 3,8% para 3,4%, com Selic constante a 14,25% e dólar a R$2,15, e de 4,3% para 3,5% pelo cenário de mercado. Em ambos os casos, os percentuais estão abaixo da meta do governo. O relatório do BC também fez uma análise mais positiva sobre os riscos externos, ressaltando a melhor capacidade de o Brasil resistir a choques vindos de fora. Existe menor temor sobre possíveis aumentos das taxas de juros nos Estados Unidos e desaceleração daquela economia.