Título: ESTRELAS VERMELHAS QUE SE APAGARAM NO CÉU DE LULA
Autor: Chico de Gois
Fonte: O Globo, 01/10/2006, O País, p. 4
Depois de usar símbolo do partido no peito, presidente se afasta de antigos companheiros e vai precisar do PMDB, se reeleito
No início eram flores, e a estrela vermelha do PT brilhava até na lapela do recém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva em encontro com o colega George W. Bush, em Washington, numa visita depois de o petista vencer as eleições em 2002. A primeira-dama, Marisa Letícia, mandou fazer um canteiro de sálvias vermelhas, em forma de estrela, nos jardins do Palácio do Alvorada, residência oficial do presidente da República.
Quatro anos depois, o vermelho perdeu o tom, a estrela foi eclipsada e nem tudo são flores na vida de Lula e do partido que fundou, e que se afunda em denúncias de envolvimento com caixa dois e dinheiro em malas. Nos próximos quatro anos, caso Lula seja reeleito, o futuro governo já não contará com uma constelação petista:
¿ Houve, num período, uma relação distorcida na qual não se precisava os limites de atuação de certos indivíduos. Isso é negativo. O partido fica sob a influência de indivíduos. No segundo mandato o presidente terá de ter relação mais institucional com o PT. Não só é benéfico como altamente moralizante ¿ diz o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro.
Segundo ele, Lula trabalha hoje com o conceito de um governo de coalizão e, por isso, o critério para divisão dos cargos seria a representatividade dos partidos no Parlamento.
¿ Num governo de coalizão, os partidos têm presença no governo segundo a extensão de suas bases no Parlamento e não da relação do presidente com o partido ¿ diz o ministro.
Refundação inevitável
Para Tarso, o último escândalo envolvendo altos dirigentes do partido na compra do dossiê contra tucanos tornou inevitável um processo de reconstrução do PT:
¿ A reconstrução ou refundação não é mais uma opção, é um processo inevitável.
Em torno do presidente, se reeleito, quem deve ganhar espaço é o PMDB, que, antes do fim da eleição, já fala em seis ministérios, como expressou o candidato ao Senado Newton Cardoso (MG), mais novo aliado de Lula, ao lado de Jader Barbalho (PA) e Geddel Vieira Lima (BA).
¿ Não basta lealdade do PT. Temos que buscar diálogo para ter governabilidade. O PMDB deve ganhar espaço ¿ diz o governador do Acre, Jorge Viana.
Dois motivos levam o presidente a trocar parte do PT pelo PMDB num eventual segundo mandato. Lula precisará de aliados para lhe garantir a governabilidade. Não quer correr o mesmo risco do primeiro mandato quando, para aprovar projetos do interesse do Executivo, tinha de fazer alianças pontuais com PL, PP, PTB, parte do PMDB e de outros partidos nanicos. Foram esses partidos os envolvidos no escândalo do valerioduto.
Por causa dos escândalos, o PT viu minados nomes como José Dirceu (Casa Civil), Antonio Palocci (Fazenda), José Genoino (presidência do PT), Luiz Gushiken (Comunicação Institucional) e Ricardo Berzoini (coordenador da campanha à reeleição). Até amigos entraram na lista dos que ¿traíram¿ o presidente, embora ele nunca tenha apontado nomes. Os mais novos companheiros a se envolver em operações suspeitas foram o assessor Freud Godoy, o ex-diretor do Sindicato dos Metalúrgicos Oswaldo Bargas, e o churrasqueiro Jorge Lorenzetti.
¿ O presidente Lula vai se afastar de qualquer um que meta os pés pelas mãos ¿ diz Jorge Viana.
Os petistas terão de fazer um acerto de contas interno, como diz Arlindo Chinaglia (SP):
¿ O PT tem de fazer uma discussão interna para recuperar a credibilidade e a autoridade.