Título: SOCIEDADE PERDERÁ REFERÊNCIAS E INTERLOCUTORES
Autor: Henrique Gomes Batista
Fonte: O Globo, 01/10/2006, O País, p. 13
Mercadante é um dos grandes derrotados, diz cientista político
BRASÍLIA. O cientista político do Departamento Intersindical de Análise Parlamentar (Diap) Antônio Augusto de Queiroz diz acreditar que a falta de parlamentares que lideraram seguidamente a lista anual da entidade entre os mais influentes do Congresso empobrece o Legislativo brasileiro.
¿ Muitos setores da sociedade perderão suas referências e interlocutores. Alguns acreditam que a renovação é boa, mas isso é muito relativo, pois em alguns casos há que parlamentares traduzem bem o anseio de parte da população e sabem conduzir o debate político.
O cientista político do Diap acredita que há de tudo na lista dos futuros ¿sem-mandato¿: políticos que não disputam por não ver chance de vitória; desilusão com a vida pública; abandono para projeção de filhos ou parentes, ou outras candidaturas suicidas em prol de um projeto do partido; e a maior parte por tentar maior visibilidade em cargos majoritários.
¿ Nessa eleição não vai haver renovação real, pois políticos experientes entrarão no lugar dos que saem. A renovação da atual geração deve ocorrer em 2010 ¿ disse, lembrando que as eleições serão marcadas pela força de parentes e filhos de políticos, o aumento de artistas/comunicadores e o maior vigor na votação de representantes das igrejas evangélicas.
Heloísa Helena pode até deixar de ser força local
Ele acredita que o caso mais emblemático deve ser o da senadora Heloísa Helena, que deve ficar sem mandato, mas vitoriosa politicamente com votação expressiva. Ele acha que ela pode se tornar referência nacional, se continuar a presidir o PSOL ou uma ONG com visibilidade, como Lula fez. Mas se o partido não ultrapassar a cláusula de barreira e a senadora deixar a mídia, ela até pode deixar de ser uma força local.
Para Queiroz, entretanto, quem mais perderá com essas eleições, mesmo mantendo o mandato de senador, é Aloizio Mercadante (PT-SP). A acusação de membros de sua campanha no caso do dossiê, segundo o cientista político, inviabiliza sua ida a um ministério, seu retorno à liderança do governo e praticamente sepulta as chances de concorrer ao Planalto em 2010.
O diretor da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, também não vê com bons olhos a falta de alguns líderes no Congresso no próximo ano. Para ele, os políticos novos demoram para se adaptar ao ambiente legislativo.
¿ Haverá cerca de cem pessoas eleitas por legendas que não ultrapassarão a cláusula de barreira. O que podemos esperar é uma situação que deve diminuir o nível da relação entre Executivo e Legislativo.