Título: CRISTINA FAZ SARNEY RENOVAR AS FORÇAS
Autor: Evandro Éboli
Fonte: O Globo, 01/10/2006, O País, p. 30
Estreante na política ameaça senador, que resolve brigar pelos votos
MACAPÁ (AP). Em 50 anos de vida pública, completados este ano, o senador José Sarney (PMDB-AP) enfrenta uma das suas mais duras disputas eleitorais. Quem chegou à Presidência da República, ainda que pelo voto indireto, foi deputado, governador do Maranhão e quatro vezes senador talvez não imaginasse que, no longínquo Amapá, pudesse ter sua trajetória ameaçada por uma adversária pobre, negra e com parcos recursos para fazer frente à sua rica campanha.
Quem acompanhou Sarney nesses dias que antecederam a eleição de hoje encontrou um senador bastante diferente do que se costuma ver no plenário do Senado e pelos corredores do Congresso Nacional. Aos 76 anos, Sarney teve que correr atrás do prejuízo representado pelo crescimento de sua principal adversária, a servidora pública Cristina Almeida (PSB), nas pesquisas.
¿ Acharam que o velho Sarney não tinha força, mas resisti a campanha inteira como um jovem, um moço, rejuvenescido pelo apoio de vocês ¿ disse Sarney no seu último comício, no centro de Macapá.
Cristina atacou o que pode ser o ponto fraco de Sarney e que a fez crescer nas pesquisas. Acusou-o de ser um forasteiro no Amapá, desconhecendo a região e só aparecendo em época de eleição.
¿ Tenho o mérito de ter feito com que o todo-poderoso Sarney saísse às ruas, olhasse na cara do povo e pegasse na sua mão. Ele nunca fez isso antes. Sempre ganhou a eleição aqui enviando vídeo com depoimento gravado em Brasília ¿ disse Cristina Almeida.
Na pesquisa Ibope divulgada sexta-feira à noite, Sarney tinha 50% das intenções de votos contra 37% de Cristina. Para o governo do estado, o aliado de Sarney, o governador Waldez Góes (PDT), pode ser reeleito no primeiro turno, com 55% dos votos válidos, segundo o Ibope. O maior adversário de Sarney no estado, João Capiberibe (PSB), tem 38% dos votos válidos.
Num comício na cidade de Santana esta semana, Sarney chegou a suplicar votos:
¿ Humildemente peço para que vocês possam me ajudar. As crianças que estão aqui não votam, mas podem pedir para seus irmãos, seus tios, seus pais votarem no Sarney.
Ele gravou uma telemensagem pedindo voto a quem atendesse o telefone: ¿Aqui é o presidente Sarney. A eleição está chegando. Conto com seu apoio¿, dizia a gravação.
Cristina: ¿Era o momento de buscar um espaço de poder¿
A candidata do PSB jamais disputou uma eleição mas diz que conquistou seu espaço:
¿ Sou ligada ao movimento negro, ao das mulheres e a tantos outros. Era o momento de buscar um espaço de poder, de decisão. Tive o apoio do meu partido e fui em frente.
Para tentar garantir o quinto mandato como senador, Sarney apoiou-se no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não foi ao Amapá nesta campanha. Mas seu ministro Silas Rondeau (Minas e Energia), apadrinhado de Sarney, esteve em Macapá quinta-feira reforçando a campanha do senador. Lula mandou uma carta, lida pelo senador do palanque.
Ele não arredou pé de Macapá nas últimas semanas. O crescimento de Cristina acendeu todas as luzes de alerta no comitê sarneyzista. Cristina Almeida tem 40 anos e se apresenta como uma mulher ousada por ter sido aprovada no primeiro concurso para ingresso de mulheres na Polícia Militar, em 1989. É formada em administração de empresas e hoje é funcionária concursada da Assembléia Legislativa.
Ela também se anuncia como uma mulher determinada ¿por estar enfrentando nas urnas um dos políticos mais conservadores da História do Brasil¿, diz sua biografia.
Se Cristina sair derrotada, retorna ao trabalho de servidora pública ou, numa eventual reeleição de Lula, pode voltar a ocupar cargo no governo. Ela foi superintendente do Incra de 2003 a 2005.
Difícil é imaginar o destino de Sarney caso as urnas neguem a ele novo mandato. O governador do Amapá, Waldez Góes (PDT), repete o seguinte nos comícios:
¿ O presidente Sarney poderia estar hoje descansando, tem idade para isso. Mas náo, ele escolheu o Amapá para ajudar. Poderia ter escolhido outro estado.