Título: Lula: 'Decisão de faltar ao debate foi certa'
Autor: Ricardo Galhardo/Chico de Gois
Fonte: O Globo, 30/09/2006, O País, p. 16

Para coordenador da campanha, Marco Aurélio Garcia, encontro foi palanque para adversários atacarem o presidente

SÃO BERNARDO DO CAMPO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerou ontem acertada sua decisão de não comparecer ao debate na TV Globo, anteontem à noite.

- Hoje estou convencido de que minha decisão foi certa - afirmou o presidente. - Foi bom que o povo viu o tipo de debate que os adversários queriam fazer.

O coordenador da campanha de Lula à reeleição, Marco Aurélio Garcia, seguiu na mesma linha e tentou minimizar o efeito da ausência do presidente no debate. Mesmo dizendo não ter visto o programa, Garcia afirmou que foi apenas mais um palanque para os adversários atacarem Lula.

- Não tem impacto. Não temos preocupação. O presidente esclareceu porque não foi, e quem assistiu, o que não foi o meu caso, viu que não foi um debate de idéias e programas, mas sim mais uma oportunidade para atacar o presidente. O presidente não estava disposto a se prestar a um espetáculo deste tipo - disse Garcia.

Sem a Lula, Geraldo Alckmin (PSDB), Heloisa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) passaram a criticá-lo, uma vez que as regras do debatem permitiam aos demais candidatos fazer uma pergunta por bloco ao faltante, mesmo sabendo que não teriam resposta, obviamente.

O presidente só tomou a decisão de não ir ao debate no fim da tarde de quinta-feira. Optou por um comício em São Bernardo do Campo para finalizar sua campanha, ao lado de vários petistas acusados de envolvimento com o mensalão, como José Mentor e Professor Luizinho.

- Não deixaria de vir aqui por nada deste mundo - discursou Lula anteontem à noite.

O presidente não chegou a assistir ao debate. Saiu do comício em São Bernardo do Campo por volta das 23h, e foi direto para seu apartamento, onde se reuniu com amigos e assessores até o início da madrugada.

Ontem, Lula não parecia preocupado com os ataques que recebeu. Pelo contrário. Acabou por cobrar dos demais candidatos a apresentação de propostas para o país.

- Eles poderiam ter aproveitado a oportunidade e ter dito o que pretendem fazer pelo Brasil -- cutucou o presidente.

Para Lula, as eleições deste ano foram marcadas "pelo baixo nível" dos demais concorrentes.

Ontem à tarde, assessores do presidente entraram em contato com os institutos de pesquisa para saber o impacto da ausência. Segundo estas sondagens, não chegou a se configurar uma queda de Lula nas pesquisas, mas houve pequena oscilação negativa. O comando da campanha esperava uma avaliação mais precisa ontem à noite, quando seria feita uma rodada de entrevistas depois do "Jornal Nacional".

O presidente, que na noite de anteontem usou de ironia para criticar a imprensa, ontem foi só elogios para o papel da mídia. Disse que todo candidato teve direito à aparição no rádio e na TV, e que as entrevistas individuais promovidas por esses meios, as quais ele classificou de "debate", deram oportunidade igual aos candidatos. Lula, no entanto, não compareceu à sabatina promovida pelo GLOBO. Foi o único dos presidenciáveis a se recusar a ser entrevistado por colunistas do jornal.

- Ninguém poderá se queixar da cobertura da imprensa - afirmou o presidente ontem, na porta da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo.

(*) Enviado especial

De volta à porta das montadoras

Presidente nem precisou panfletar

SÃO PAULO. Pela primeira vez desde a campanha de 2002, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou à porta de montadoras em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, para pedir votos. A idéia era fazer panfletagem, mas Lula não precisou pedir votos nem distribuir material para lembrar aos antigos companheiros de fábrica que concorre à reeleição presidencial. Quem procurou ganhar votos foram os candidatos a deputado, como Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, e Heiguiberto Guiba Della Bella Navarro, o Guiba, ex-presidentes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Antes da chegada de Lula à Mercedes-Benz, primeiro local de parada, às 14h30m, os sindicalistas, que ainda o chamam de "Baiano", antigo apelido dos tempos de peão, organizavam o evento. Cercas foram colocadas para que os funcionários passassem obrigatoriamente por Lula para cumprimentá-lo.

Lula chegou com o aparato de segurança da Presidência. Esperavam-no o candidato do PT ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante, a ex-prefeita paulistana Marta Suplicy e o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), além de uma faixa assinada por funcionários com o tema do refrão do jingle de campanha: "É Lula de novo, com a força do povo".

Lula distribuiu autógrafos, posou para fotos, beijou e apertou mãos. No total, foram cerca de 4.500 cumprimentos, número de funcionários do turno. A quantidade iria se repetir na Ford, a outra montadora visitada pelo candidato-peão-presidente.

-- Cadê a caneta? - perguntava um operário que não queria deixar escapar um autógrafo do presidente.

Da Mercedes, Lula foi à Ford. Ao seu lado se posicionaram Mercadante, Marta e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Operários revezavam o coro "um, dois, três, é Lula outra vez" e "olê, olê, olê, olá, Lula, Lula". Amorim, diplomata de carreira, ameaçava repetir o refrão, mas desistiu. Foi dos mais cumprimentados. Muitos funcionários vestiam uma camiseta vermelha do PT. Um deles pediu para ser fotografado com o presidente. Lula permaneceu 50 minutos cumprimentando os funcionários. Nem mesmo uma garoa o desestimulou. Colocou um gorro e continuou a troca de apertos de mão.