Título: FRANCÊS SE REFUGIA APÓS CRÍTICA AO ISLÃ
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Fonte: O Globo, 30/09/2006, O Mundo, p. 46
Professor recebe ameaças ao publicar artigo chamando Alcorão de violento e Maomé de polígamo
PARIS. Depois das declarações polêmicas do Papa Bento XVI e do cancelamento na Alemanha de uma ópera de Mozart em que era mostrada uma cabeça cortada do profeta Maomé, o foco da polêmica envolvendo a liberdade de expressão em relação ao Islã, e a reação que ela pode desencadear entre os muçulmanos, está num professor de filosofia francês. Robert Redeker, de 52 anos, professor de uma escola de ensino médio em Toulouse, no sul da França, precisou se esconder, juntamente com sua família, desde que publicou um artigo virulento contra o Islã no jornal conservador "Le Figaro", no último dia 19. Suas palavras lhe renderam ameaças de morte por parte de muçulmanos.
Ele parou de dar aulas, e conta com a proteção de policiais, que mudam a família de lugar "de dois em dois dias", segundo relatou o professor, ontem, numa entrevista à rádio francesa "Europe 1". Em seu artigo no "Figaro", Redeker chamou o Alcorão de "incrivelmente violento" e Maomé de "senhor de guerra sem piedade, saqueador, açougueiro de judeus e polígamo", além de escrever que "o Islã exalta ódio e violência". No artigo, publicado exatamente uma semana depois das declarações de Bento XVI que tanto ofenderam os muçulmanos, o filósofo também defendeu o Papa.
Polícia de Paris investiga responsáveis pelas ameaças
O professor relatou que os radicais enviaram materiais à sua casa contendo mapas de como chegar lá, fotos dele, de sua família e de seu local de trabalho. O primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, chamou as ameaças contra Redeker de "intoleráveis".
- Nos mostram que vivemos num mundo perigoso, freqüentemente marcado pela intolerância.
Falando à rádio francesa de um local não divulgado, Redeker disse se sentir sozinho e abandonado. Ele aproveitou para criticar o ministro da Educação francês, Gilles de Robien, "que não telefonou nem para oferecer ajuda". Robien também criticou o professor, dizendo que ele poderia ter sido mais prudente na escolha de suas palavras.
- Não me arrependo. Pensar de forma crítica é o papel dos filósofos. Se Robien estivesse correto, não haveria mais nenhum intelectual na França - rebateu Redeker.
A polícia de Paris investiga se as ameaças ao professor estão ligadas a movimentações de supostas células terroristas na capital francesa.
Ao mesmo tempo, o caso gera debate na França. Além de Villepin, Dalil Boubakeur, diretor do Conselho Muçulmano Francês, criticou as ameaças ao professor, frisando "que ninguém pode fazer justiça com as próprias mãos". Dois grandes sindicatos de professores publicaram comunicados apoiando a liberdade de expressão. "Mesmo que não compartilhemos das convicções de nosso colega", disse um deles.
A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) disse que as palavras de Redeker "podem ter sido chocantes, mas, se o 'Figaro' tivesse optado por não publicá-las, representaria uma derrota da liberdade de pensamento e expressão". Em editorial publicado ontem, o jornal justificou-se: "Somos abertos a opiniões diversas. Todos os dias publicamos debates, controvérsias, pontos de vista contraditórios. Entendemos que, juntamente com a informação em si, temos que fornecer a nossos leitores subsídios para que eles formem suas próprias opiniões, mesmo que elas não sejam exatamente as nossas".
Na Áustria, a Prefeitura de Viena mostrou, ontem, de que lado está no debate, ao afirmar que pretende montar a ópera "Idomeneo", de Mozart, que foi retirada da programação em Berlim. Além da cabeça decapitada de Maomé, a representação traz cabeças cortadas de Jesus Cristo, Buda e Poseidon.