Título: Entre os mais influentes do Congresso, 17 ficam fora
Autor: Alan Gripp
Fonte: O Globo, 03/10/2006, O País, p. 17
Lista de derrotados inclui de Delfim a Jandira Feghalli; maioria dos apontados como mais importantes pelo Diap se reelegeu
BRASÍLIA. O poder de influência na política nacional não foi suficiente para garantir a candidatos de peso a vitória nas urnas. Dos cem parlamentares apontados como os mais influentes do Congresso este ano pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), 36 saíram derrotados nas eleições. A lista inclui políticos tradicionais e de correntes distintas, como o petista Paulo Delgado (MG) e o peemedebista Delfim Netto (SP).
Desde 1987, Delfim e Delgado tiveram cinco vitórias consecutivas cada um. O neo-peemedebista (era do PP), que já foi quatro vezes ministro, teve só 38 mil votos e a quinta colocação em sua coligação (que só elegeu três). Já o petista, que sempre teve o chamado voto ideológico, ficou a 11 mil votos da vitória. E, de quebra, assistiu a colegas seus de partido citados em escândalos vencerem com folga.
- Nossa democracia fez 21 anos, e estamos assistindo a uma mudança de ciclo. De certa forma, é uma resposta do eleitor de que está cansado de quem já está aí por muito tempo - opina o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, da Uerj.
Entre os mais influentes do Congresso, 14 não se reelegeram no Senado e três na Câmara. Entre estes, o ex-governador de São Paulo Luiz Antônio Fleury Filho (PTB) e Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ), que preside a CPI dos Sanguessugas. Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), que disputou - e perdeu - a presidência da Câmara contra Severino Cavalcanti (PP-PE), também não voltará para a Casa, assim como Severino.
- O fato de ser influente no Congresso não significa que será bom de voto. Os parlamentares, especialmente os de grande projeção nacional, concentram sua atuação no plano nacional e deixam de lado as bases estaduais - diz o analista Antônio Augusto Queiróz, do Diap.
Seis senadores candidatos a governo do estado derrotados
No Senado, os seis candidatos a governos estaduais fracassaram: Aloizio Mercadante (PT), em São Paulo; Delcídio Amaral (PT), no Mato Grosso do Sul; Arthur Virgílio (PSDB), no Amazonas; Romero Jucá (PMDB), em Roraima; Demóstenes Torres (PFL), em Goiás; e Amir Lando (PMDB), em Rondônia. A exceção à turma foi o senador Paulo Octávio (PFL), eleito vice-governador do Distrito Federal.
Entre os deputados, Jandira Feghalli (PCdoB-RJ), Agnelo Queiróz (PCdoB-DF), José Thomaz Nonô (PFL-AL), e Pauderney Avelino (PFL-AM), perderam a eleição para o Senado e ficam sem mandato, assim como Eduardo Paes (PSDB-RJ), que ficou com a quinta colocação na disputa pelo governo do Rio.
Mas a maioria dos parlamentares mais influentes (44) se reelegeu. No Senado, terão mais oito anos de mandato Tião Viana (PT-AC), Pedro Simon (PMDB-RS), Eduardo Suplicy (PT-SP) e Álvaro Dias (PSDB-PR). Os deputados Eduardo Campos (PSB-PE) e Yeda Crusius (PSDB-RS) disputam o segundo turno para o governo.
CORPO A CORPO - PAULO DELGADO
'Fui punido pela ausência de debate de princípios'
Derrotado nas urnas depois de quase 20 anos de vida pública e cinco mandatos como deputado federal, Paulo Delgado (PT) diz que seu fracasso é resultado do desgaste do voto ideológico. "Fui comido pela ausência de debate de princípios", afirma. Ele acusou a maioria de seus concorrentes de ter comprado o apoio de vereadores e prefeitos. E disse que seu partido foi castigado por alianças como a com o ex-governador de Minas Newton Cardoso (PMDB): "O povo puniu o PT".
O senhor tem explicações para sua derrota após cinco eleições?
PAULO DELGADO: Foi a eleição do pragmatismo puro e sem princípios. Os prefeitos foram os principais cabos eleitorais e só falavam em emendas parlamentares e em Orçamento da União, não houve debate de idéias. Fui comido pela ausência de debate de princípios. Minhas cinco eleições foram sempre as de um formulador de opiniões, de um debatedor. De repente, tive de enfrentar concorrentes que construíram hospitais privados com dinheiro público.
O senhor considera que o voto ideológico está com os dias contados?
DELGADO: O deputado mais votado do PT em Minas Gerais (Juvenil Alves) é um advogado desconhecido do estado, mas conhecido de empresas com problemas. Chegou a envolver a Igreja em sua campanha. Nós (o PT) não teremos uma bancada de deputados, e sim de vereadores federais. O povo puniu o PT, com algumas exceções. Não tem nenhum petista no Sul e no Sudeste que esteja entre os dez primeiros. Em Minas, o primeiro é o 19º geral. Mas, tudo bem: é uma onda de degradação na política que vai passar.
E as eleições majoritárias?
DELGADO: Essa foi a eleição da devassidão eleitoral, sem propostas e programas de governo. Uma eleição de um país visto como um asilo: tudo de graça (para o eleitor), simplesmente casa comida e roupa lavada. Houve também uma desconexão entre as campanhas majoritárias e proporcionais. Em Minas Gerais, por exemplo, o PT perdeu o viço ao preferir Newton Cardoso (ex-governador, do PMDB) ao próprio PT e pagou o preço de ver o PSDB crescer no estado.
Como o senhor avalia o retorno de colegas do PT citados em escândalos?
DELGADO: Eles são os senhores dos eleitores municipais. O problema é que os prefeitos em todo o Brasil transformaram esta campanha na mais cara e ilegal da história. Quase nenhum prefeito ou vereador resiste hoje a uma investigação.
Como assim?
DELGADO: Os vereadores foram comprados, e por todos os partidos sem exceção. Como a lei obrigava a ter o caixa um na campanha de rua, o caixa dois se terceirizou com o vereador e com o prefeito. Outra coisa que aconteceu foi o renascimento do filhotismo. Aqui em Minas são dez filhos de deputados eleitos. O mais votado (Rodrigo de Castro, do PSDB) tem 30 anos de idade. O pai dele deu a ele 300 mil votos de presente.
O que o senhor pretende fazer daqui para a frente?
DELGADO: Sou professor por profissão e político por decisão do eleitor. O que eu entendi é que os meus eleitores querem que eu volte a ser professor (de sociologia e política na Universidade Federal de Juiz de Fora). Fui deputado com honra e voltarei a ser professor com muita honra. (Alan Gripp)