Título: RETRATOS DAS VOTAÇÕES DE LULA E ALCKMIN PELO PAÍS
Autor: Ilimar Franco
Fonte: O Globo, 04/10/2006, O País, p. 13

Petista foi mais votado em Manaquiri (AM) graças ao Bolsa Família e tucano em Ipiranga do Sul (RS), por fazendeiros

BRASÍLIA. As melhores votações conquistadas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) entre os 5.564 municípios brasileiros oferecem um retrato da divisão do país no primeiro turno das eleições presidenciais. Manaquiri, no Amazonas, que deu ao petista 93,37% de seus votos, e Ipiranga do Sul, no Rio Grande do Sul, onde o tucano foi prestigiado por 82,8% do eleitorado, são municípios separados tanto pela distância continental quanto pelos indicadores sociais.

Distante 60 quilômetros de Manaus, Manaquiri é um município pobre, que vive da pecuária. Segundo dados disponíveis no IBGE, tem apenas dois carros, cerca de 14 mil habitantes e 24.495 cabeças de gado. A renda per capita em 2002 foi de R$1.905. Nesse município, Lula teve 5.982 votos, contra apenas 280 de Alckmin, o que é explicado pelo prefeito Jair Aguiar Souto (PL) pela chegada dos programas assistenciais do governo federal.

¿ Aqui tem mais de 1.500 benefícios do Bolsa Família, e o Luz Para Todos está entrando nas comunidades. Essas famílias não tinham renda antes disso ¿ diz o prefeito, que se aliou ao PT no estado.

No Sul, renda nove vezes maior

No outro extremo do país, Alckmin recebeu 1.209 dos 1.661 votos de Ipiranga do Sul, no norte do Rio Grande do Sul, estado governado pelo PMDB. A população também é muito pequena, mas formada em grande parte por fazendeiros, com renda per capita nove vezes maior do que a do município da Amazônia: R$17.219,75. Os eleitores do município, que vivem da cultura de soja, milho, trigo e cevada, culpam Lula pelo desempenho ruim da agricultura na região.

¿ Estamos passando por uma crise muito feia na agricultura e a população viu em Alckmin uma saída. Já tivemos experiências péssimas com petistas. Do PT, não esperamos nada ¿ disse o secretário municipal de Administração, Ronei Cecconello.

As maiores derrotas percentuais de Lula e Alckmin seguem a mesma lógica. A menor votação do petista aconteceu em Arroio do Padre, também no Rio Grande do Sul, um pequeno município que já foi um distrito de Pelotas e tem renda per capita de R$4.787,50. Lá, Lula teve apenas 217 votos (11,41%). Alckmin conquistou sete vezes mais eleitores: 1.551 (81,5%)

Já o pior desempenho de Alckmin aconteceu em Central do Maranhão (MA), cidade pobre que ocupa o 4.833º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano por Municípios (IDH-M). Mesmo tendo 8.500 habitantes, tem frota de apenas seis carros, segundo os dados do IBGE. Em Central, Alckmin obteve apenas 156 votos (3,92%). Lula, 3.445 (90,8%), ou seja, 22 vezes mais.

Em Sampaio, HH teve só três votos

A maior vitória da candidata derrotada do PSOL à Presidência, senadora Heloísa Helena (AL), foi em Maceió, capital de Alagoas, seu estado natal, com 24,51% dos votos. A maior derrota foi em Sampaio, em Tocantins, onde a candidata teve apenas três votos, menos da metade da desconhecida Ana Maria Rangel (PRP).

O candidato do PDT à Presidência, Cristovam Buarque, convenceu apenas um dos 855 eleitores de Anhangüera, em Goiás, seu pior desempenho (0,15% dos votos). O melhor resultado proporcional do pedetista aconteceu em Calmon, em Santa Catarina, onde conquistou 611 votos (27,37%).

Nos estados, Lula obteve melhor desempenho no Amazonas, com 78,07% dos votos. Lá, Alckmin obteve apenas 12,45%. A maior vitória estadual do tucano foi em Roraima, onde recebeu 59,73% dos votos válidos. No mesmo estado, Lula atingiu apenas 26,15% dos votos.

Heloísa teve melhor desempenho no Rio, onde conquistou 1,42 milhão de votos (17,13%). O resultado no estado, que a livrou de um fracasso maior nas eleições, foi melhor até do que em seu estado natal, Alagoas, onde obteve 13,32% dos votos. A votação proporcional dela no Rio foi três vezes maior do que a média nacional da senadora.

Já Cristovam, que teve 2,5 milhões em todo o país, foi melhor em seu berço político, o Distrito Federal, onde obteve 6,15% dos votos. Ainda assim, terminou em quarto lugar na capital do país. Sua pior votação proporcional foi no Acre, onde conquistou apenas 1,16% dos eleitores.