Título: COLIDINDO COM A MORTE A 37 MIL PÉS DE ALTITUDE
Autor: Joe Sharkey
Fonte: O Globo, 04/10/2006, O País, p. 19
O jornalista Joe Sharkey, do ¿New York Times", que estava no Legacy, conta o que sentiu ao ouvir a frase ¿Nós fomos atingidos¿
NOVA YORK. Estava sendo um vôo tranqüilo e confortável.
Com o quebra-sol fechado, eu descansava no meu assento de couro a bordo de um jato corporativo de US$25 milhões, que estava voando a 37.000 pés sobre a vasta Floresta Amazônica. Cada uma das sete pessoas a bordo do jato para 13 passageiros estava entretida consigo mesma.
Sem aviso, eu senti um terrível solavanco e ouvi um estrondo, seguido por um silêncio quebrado apenas pelo barulho dos motores.
E então as três palavras que nunca mais vou esquecer: ¿Nós fomos atingidos¿, disse Henry Yandle, um passageiro que estava em pé no corredor perto da cabine do jato Legacy 600 da Embraer.
¿ Atingidos? Como assim? ¿ perguntei. Eu abri a cortina. O céu estava claro e o sol baixo. A floresta continuava a se perder de vista. Mas lá, na ponta da asa, onde o winglet de cinco pés de altura deveria estar, havia uma extremidade avariada.
Bilhetes de despedida foram escritos para familiares
E então começaram os 30 minutos mais dolorosos da minha vida. Nos dias que se seguiram, ouvi muitas vezes que ninguém sobrevive a uma colisão no ar. Eu tinha sorte de estar vivo ¿ e somente depois saberia que as 155 pessoas a bordo do Boeing 737 de um vôo doméstico, que parece ter colidido com o nosso, não tiveram.
Investigadores estão ainda tentando descobrir o que aconteceu e como nosso jato, sendo menor, conseguiu ficar no ar, enquanto o 737, maior, mais largo e três vezes mais pesado, caiu de nariz.
Mas, às 15h59m da última sexta-feira, tudo o que eu pude ver, tudo o que soube foi que parte da asa tinha sumido. E era claro que a situação estava piorando rapidamente. A extremidade frontal da asa estava começando a se desprender.
Surpreendentemente, ninguém ficou em pânico. Os pilotos calmamente começaram a verificar seus controles e mapas em busca de sinais de um aeroporto próximo ou, do lado de fora da janela, de um lugar para pousar.
Mas, à medida que os minutos passavam, o avião perdia velocidade. Agora todos nós sabíamos o quanto a situação era ruim. Eu ficava imaginando como seria dolorosa uma aterrissagem ¿ um eufemismo para queda.
Eu pensei na minha família. Não podia usar o telefone celular, pois não havia sinal. E, como as nossas esperanças iam desaparecendo junto com o sol, alguns de nós escreviam bilhetes para esposas e pessoas amadas e os guardavam em nossas carteiras, na esperança de que posteriormente fossem encontrados.
Eu estava fazendo outro tipo de anotação quando o vôo começou. Por sete anos, tenho sido colaborador da coluna ¿On the Road¿, da seção de Viagens de Negócios do New York Times. Mas estava no jato Embraer 600 fazendo um freelance para a ¿Business Jet Traveler Magazine¿.
Meus companheiros de viagem incluíam executivos da Embraer e da companhia de vôos charter Excel Aire, que havia me convidado para voar no jato que ela acabara de comprar.
E tinha sido um passeio agradável. Minutos antes de sermos atingidos, tinha ido à cabine conversar com os pilotos, que disseram que o avião estava voando perfeitamente. Eu vi o instrumento que mostrava a nossa altitude: 37 mil pés.
Retornei ao meu assento. Minutos depois aconteceu a colisão (que levou também parte da cauda do avião, como nós soubemos depois).
Imediatamente depois, não houve muita conversa.
O senhor Rimmer, um homem grande, estava no corredor em frente a mim olhando fixamente para a parte avariada da asa.
¿ Qual o tamanho do estrago? ¿ perguntei.
Ele me olhou fixamente e respondeu:
¿ Não sei.
Eu vi os gestos dos pilotos. Eles eram como soldados de infantaria trabalhando juntos, exatamente como tinham sido treinados para fazer.
Pelos próximos 25 minutos, os pilotos, Joe Lepore e Jan Paladino, estavam vasculhando seus instrumentos à procura de um aeroporto. Nada surgia.
Eles enviaram um sinal de mayday (socorro), captado por um avião de carga em algum lugar da região. Não houve contato com qualquer outro avião e certamente nem com um 737 no mesmo espaço aéreo.
Lepore localizou uma pista na floresta escura.
¿ Posso ver um aeroporto ¿ disse.
Eles tentaram contato com a torre de controle do que se descobriu depois ser uma base militar escondida na Floresta Amazônica.
À medida que eles se aproximaram da pista, fizeram o primeiro contato com a torre de controle.
¿ Nós não sabíamos o quanto de pista tínhamos ou o que estava sobre ela ¿ Paladino diria, tarde da noite, na base da Serra do Cachimbo.
Eu assisti aos pilotos lutarem com o avião, porque muitos de seus controles automáticos não funcionavam. Eles conseguiram parar o avião deixando ainda bastante pista. Nós cambaleamos até a saída.
¿ Bom vôo! ¿ eu disse para os pilotos ao passar por eles. Na verdade, pronunciei uma palavra impublicável entre bom e vôo.
¿ Ao seu dispor ¿ disse Paladino, com um sorriso ansioso.