Título: O PODER DO CARTEL
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Fonte: O Globo, 06/10/2006, Economia, p. 31

Opep fala em corte na produção de 1 milhão de barris e preço do petróleo volta aos US$60

DUBAI, NOVA YORK, LONDRES e RIO

AOrganização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) conseguiu o que queria: após representantes do cartel dizerem que haverá um corte de um milhão de barris diários, a fim de interromper a queda dos preços, as cotações subiram ontem, voltando aos US$60. Segundo delegados da Opep, a Arábia Saudita, o principal exportador global, assumirá a maior parte do corte, reduzindo sua produção em 300 mil barris diários. Em setembro o país produziu 9,1 milhão de barris.

Em Nova York, o barril do tipo leve americano subiu 1%, para US$60,03, enquanto em Londres o do Brent avançou 1,31%, para US$60.

¿ Os preços teriam continuado a cair se não houvesse uma ação concreta da Opep ¿ disse Adam Sieminski, analista do Deutsche Bank. ¿ A alta dos estoques está mostrando que o mercado está muito bem abastecido.

Para o especialista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-estrutura, as cotações poderiam ir a US$55 sem a interferência da Opep. Ele pondera que a especulação, mais que a decisão do cartel, deve puxar os preços:

¿ Foi o que aconteceu hoje (ontem). A intenção da Opep me parece ser manter o custo em torno de US$60, então não vejo maiores impactos no Brasil. Pode haver algum repasse para os preços, mas como as projeções apontam uma inflação bastante baixa em 2007, não acredito que haja efeito negativo.

Essa também é a opinião de Cecília Hoff, economista do Grupo de Conjuntura da UFRJ. Ela acredita que a desaceleração da economia americana ¿ e, conseqüentemente, do crescimento global ¿ vai reduzir a demanda por petróleo, compensando uma possível alta dos preços. Segundo Hoff, o pior cenário é aquele em que os EUA são afetados pela alta do petróleo:

¿ Teríamos então uma inflação mais alta que sustentaria os juros dos EUA num patamar elevado por algum tempo. Com isso poderia haver uma grande migração de recursos para os EUA, com saída maciça de emergentes. Mas esse cenário é o menos provável.

Ministro nigeriano critica `queda livre¿ dos preços

Ao fazer o primeiro corte desde abril de 2004, o cartel quer interromper a queda dos preços do petróleo, que de julho até agora chega a 23%. Uma das razões para a queda são os elevados estoques dos Estados Unidos. Mas o governo americano reagiu: o secretário de Energia dos EUA, Sam Bodman, afirmou que o mundo precisa de todo o petróleo que a Opep puder produzir antes do início do inverno no Hemisfério Norte.

O presidente da Opep e ministro do Petróleo da Nigéria, Edmund Daukoru, disse que alguns membros querem um encontro de emergência antes da próxima reunião, em dezembro. Segundo a agência de notícias estatal da Argélia, esse encontro seria nos dias 18 e 19 deste mês.

¿ O consenso (da Opep) é que o mercado está muito fraco ¿ disse Daukoru à Bloomberg News. ¿ É mais ou menos uma queda livre. (Patricia Eloy, com agências internacionais)